Terra Prometida, Promessas Quebradas: A Origem do Conflito que o Mundo Ainda Não Sabe Como Encerrar
Poucos conflitos na história moderna acumulam tantas camadas de narrativa contraditória, reivindicação legítima sobreposta e responsabilidade internacional mal distribuída quanto o confronto entre israelenses e palestinos. Ele é apresentado frequentemente como uma disputa religiosa ancestral, como se judeus e muçulmanos brigassem pela mesma terra desde os tempos bíblicos por alguma fatalidade cósmica irremediável. Essa leitura é conveniente, simples e, em larga medida, incorreta. O conflito contemporâneo tem data de nascimento razoavelmente precisa, atores identificáveis e uma sequência de decisões políticas documentadas que produziram as condições atuais. Entendê-lo exige abandonar o conforto das versões prontas e enfrentar uma história que não favorece inteiramente nenhum dos lados.
Para entender por que o sionismo teve adesão tão intensa, é preciso recuar até o ano setenta depois de Cristo. Roma destruiu o Segundo Templo de Jerusalém, suprimiu a revolta judaica com brutalidade sistemática e deportou parte significativa da população judaica para outras regiões do império. A diáspora que se seguiu não apagou a identidade coletiva do povo judeu. Pelo contrário, a dispersão forçada por dezenove séculos consolidou uma memória cultural, religiosa e territorial construída em torno de um lugar específico. Gerações inteiras cresceram com rituais, orações e textos que apontavam para Jerusalém como centro espiritual e como promessa de retorno. Quando o sionismo político emergiu no século dezenove, não estava inventando um vínculo com a terra. Estava tentando transformar esse vínculo milenar em projeto político concreto. Isso distingue o caso judaico do colonialismo europeu convencional, ainda que as consequências práticas para a população árabe local tenham sido, em muitos aspectos, similares.
O ponto de partida mais honesto não está na Bíblia nem no Alcorão. Está no final do século dezenove, na Europa, e em um movimento político chamado sionismo.
O Sionismo e a Ideia de um Estado Judeu
Theodor Herzl, jornalista austro-húngaro, publicou em mil oitocentos e noventa e seis o texto que se tornaria o manifesto fundador do sionismo político moderno. A tese central era direta: diante do antissemitismo estrutural europeu, que não mostrava sinais de recuo, os judeus precisavam de um Estado próprio onde pudessem viver sem depender da tolerância alheia. A ideia não surgiu do nada. Pogrons na Rússia czarista matavam comunidades inteiras. A França do caso Dreyfus demonstrava que mesmo nas repúblicas liberais o judeu era o estranho permanente, o suspeito de serviço.
A Palestina, região sob domínio do Império Otomano, foi escolhida como destino principal por seu peso simbólico na tradição judaica. O problema é que a região não estava desabitada. Cerca de setecentos mil árabes palestinos viviam ali no final do século dezenove, organizados em comunidades rurais e urbanas com estrutura social própria, vínculos com a terra que remontavam a gerações e uma identidade coletiva em formação, ainda que o conceito moderno de nacionalidade palestina estivesse em desenvolvimento.
A imigração judaica para a Palestina cresceu em ondas ao longo das primeiras décadas do século vinte. Cada onda trouxe mais colonos, mais tensão com a população árabe local e mais complexidade para o poder otomano primeiro e britânico depois. O encontro entre dois projetos nacionais distintos disputando o mesmo território era uma equação sem solução pacífica óbvia, e todo mundo que prestava atenção sabia disso.
A Grã-Bretanha e a Arte de Prometer a Mesma Coisa para Dois Lados
A Primeira Guerra Mundial reorganizou o mapa do Oriente Médio de forma acelerada e, em muitos aspectos, irresponsável. O Império Otomano entrou na guerra ao lado das potências centrais e saiu dela fragmentado e derrotado. A Grã-Bretanha, que havia combatido os otomanos com apoio de líderes árabes da região, acumulou compromissos contraditórios que definiram décadas de conflito subsequente.
Em mil novecentos e quinze, a correspondência entre Henry McMahon, alto comissário britânico no Egito, e Hussein bin Ali, xerife de Meca, estabeleceu a base para uma revolta árabe contra os otomanos em troca da promessa britânica de apoiar a independência árabe em grande parte da região, incluindo a Palestina, com algumas ambiguidades geográficas convenientes para os britânicos.
Em mil novecentos e dezessete, o governo britânico publicou a Declaração Balfour, carta do ministro das Relações Exteriores Arthur Balfour ao líder sionista Lord Rothschild, declarando que a Grã-Bretanha via com favorabilidade o estabelecimento de um lar nacional para o povo judeu na Palestina, desde que nada fosse feito para prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não judaicas existentes. A ressalva final era longa o suficiente para parecer séria e vaga o suficiente para não comprometer nada concreto.
No mesmo período, pelo Acordo Sykes-Picot de mil novecentos e dezesseis, Grã-Bretanha e França dividiram entre si as influências no Oriente Médio pós-otomano sem consultar as populações locais. A Palestina ficaria sob administração internacional ou britânica. Os árabes que haviam combatido pela independência descobriram que sua utilidade militar não se traduzia em soberania política. A mágoa dessa traição estruturou o nacionalismo árabe por décadas.
O Mandato Britânico e a Escalada Inevitável
A Sociedade das Nações concedeu à Grã-Bretanha o mandato sobre a Palestina em mil novecentos e vinte e dois. Os britânicos governaram a região por mais de vinte e cinco anos tentando equilibrar compromissos incompatíveis com a elegância que caracteriza quem prometeu demais e entregou de menos. A imigração judaica continuou crescendo, especialmente após a ascensão do nazismo na Alemanha em mil novecentos e trinta e três. A população árabe palestina, que observava a transformação demográfica e econômica de sua região, respondeu com revoltas crescentes.
Entre mil novecentos e trinta e seis e mil novecentos e trinta e nove, a Grande Revolta Árabe paralisou partes da Palestina. Os britânicos a reprimiram com força, prenderam lideranças palestinas e enfraqueceram a capacidade organizativa da comunidade árabe num momento crítico. Ao mesmo tempo, para conter a revolta, limitaram a imigração judaica por meio do Livro Branco de mil novecentos e trinta e nove, justamente quando os judeus europeus mais precisavam de rotas de fuga do nazismo. A decisão britânica é um dos episódios mais sombrios do mandato, com consequências humanitárias que se tornaram parte permanente do argumento sionista pela necessidade de soberania própria.
A Segunda Guerra Mundial e o Holocausto transformaram radicalmente o contexto político internacional. O assassinato sistemático de seis milhões de judeus pela Alemanha nazista criou uma pressão moral sobre as potências ocidentais que tornou a oposição à criação de um Estado judeu politicamente insustentável no cenário do pós-guerra. O argumento de Herzl, feito cinquenta anos antes num contexto de antissemitismo ordinário europeu, havia sido confirmado de forma catastrófica.
A Partilha de Quarenta e Sete e a Guerra de Quarenta e Oito
Em novembro de mil novecentos e quarenta e sete, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou o Plano de Partilha da Palestina, que dividia o território em dois Estados: um judeu e um árabe. Jerusalém ficaria sob administração internacional. O plano concedia cinquenta e seis por cento do território ao Estado judeu, que representava cerca de um terço da população total e possuía proporcionalmente menos terra do que essa fatia sugere. Os líderes judeus aceitaram. Os líderes árabes rejeitaram.
A rejeição árabe é frequentemente apresentada como prova de intransigência, e em parte ela foi. Mas também refletia a realidade de uma população que representava a maioria demográfica sendo informada por uma organização internacional, sem seu consentimento, que cederia parte substancial de seu território a uma população migrante, por mais legítimos que fossem os motivos históricos dessa migração. A lógica da vítima europeia sendo instalada sobre outra população sem que esta fosse consultada tinha uma crueldade estrutural que a urgência moral do pós-Holocausto tornava difícil de articular sem parecer insensível.
Israel declarou independência em maio de mil novecentos e quarenta e oito. Os países árabes vizinhos atacaram imediatamente. A guerra que se seguiu é chamada de Guerra da Independência pelos israelenses e de Nakba, catástrofe, pelos palestinos. O resultado foi a derrota dos exércitos árabes, a expansão do território israelense para além dos limites do plano de partilha e o deslocamento de aproximadamente setecentos e cinquenta mil palestinos que fugiram ou foram expulsos de suas casas durante o conflito. Esse êxodo e a questão dos refugiados e seus descendentes permanecem até hoje sem resolução.
As Guerras Seguintes e a Ocupação que Nunca Acabou
O conflito de mil novecentos e quarenta e oito não encerrou a questão. Em mil novecentos e cinquenta e seis, Israel participou com França e Grã-Bretanha de uma operação militar contra o Egito após a nacionalização do Canal de Suez por Gamal Abdel Nasser. Em mil novecentos e sessenta e sete, a Guerra dos Seis Dias transformou o mapa da região de forma definitiva: Israel conquistou a Cisjordânia, a Faixa de Gaza, a Península do Sinai e as Colinas do Golã em menos de uma semana. A ocupação dos territórios palestinos que se iniciou ali nunca foi completamente desfeita.
Em mil novecentos e setenta e três, o Egito e a Síria lançaram um ataque surpresa durante o Yom Kippur, o Dia do Perdão judaico, recuperando inicialmente territórios perdidos em sessenta e sete antes de Israel retomar a vantagem militar. A guerra não alterou as fronteiras de forma permanente, mas demonstrou que o conflito tinha capacidade de reescalar a qualquer momento e que as potências mundiais, especialmente os Estados Unidos e a União Soviética, estavam profundamente envolvidas como fornecedoras de armas e apoio diplomático para os lados opostos.
Os Acordos de Oslo de mil novecentos e noventa e três criaram a Autoridade Palestina e estabeleceram um processo negociado para uma solução de dois Estados. Foi o momento de maior otimismo na história do conflito. O assassinato do primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin por um extremista judeu israelense em mil novecentos e noventa e cinco, a expansão contínua dos assentamentos israelenses na Cisjordânia e a incapacidade de ambos os lados de fazer concessões finais enterraram progressivamente o processo.
Gaza, Hamas e a Lógica do Beco sem Saída
A retirada israelense de Gaza em dois mil e cinco foi seguida pela vitória eleitoral do Hamas nas eleições palestinas de dois mil e seis. O Hamas, organização que não reconhece a legitimidade do Estado de Israel e que é classificada como organização terrorista pelos Estados Unidos, pela União Europeia e por outros países, tomou o controle efetivo de Gaza em dois mil e sete após confronto armado com a Fatah, fação que controla a Autoridade Palestina na Cisjordânia. Desde então, Gaza vive sob bloqueio israelense e egípcio, com consequências humanitárias graves para uma população de mais de dois milhões de pessoas.
O resultado é uma situação em que Israel argumenta que o bloqueio é necessário para impedir o armamento do Hamas, o Hamas argumenta que a resistência armada é a única resposta disponível à ocupação e ao bloqueio, e a população civil de Gaza paga o preço de ambas as lógicas simultaneamente. Os ciclos de escalada, cada um mais destrutivo que o anterior, se repetem com regularidade que seria previsível se não fosse tão devastadora.
O Papel das Potências e a Cumplicidade do Sistema Internacional
O conflito nunca foi apenas entre israelenses e palestinos. Os Estados Unidos fornecem a Israel cerca de três vírgula oito bilhões de dólares anuais em assistência militar, além de apoio diplomático consistente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, onde vetaram dezenas de resoluções críticas a Israel ao longo das décadas. O Irã financia e arma o Hamas e o Hezbollah no Líbano. Os países do Golfo Pérsico, que historicamente usavam a causa palestina como instrumento de política regional, assinaram os Acordos de Abraão com Israel em dois mil e vinte, normalizando relações e removendo parte da pressão árabe sobre Israel sem que a questão palestina fosse resolvida.
A China e a Rússia posicionam-se retoricamente em favor da causa palestina, mas sua influência prática sobre o conflito é limitada. A Europa oscila entre declarações de apoio ao direito de defesa israelense e críticas crescentes aos métodos empregados e à expansão dos assentamentos. O sistema internacional, em sua estrutura atual, não tem mecanismo eficaz para impor solução a um conflito onde a potência dominante é aliada permanente de um dos lados e onde o outro lado está fragmentado política e geograficamente.
Por que a Solução de Dois Estados Parece Cada Vez Mais Distante
A solução de dois Estados, um israelense e um palestino vivendo em paz dentro de fronteiras reconhecidas, é o consenso formal da comunidade internacional há décadas. É também, na prática atual, uma solução que enfrenta obstáculos crescentes de ambos os lados. Os assentamentos israelenses na Cisjordânia, habitados por mais de seiscentos mil cidadãos israelenses, fragmentam o território de tal forma que a criação de um Estado palestino contíguo e viável exigiria remoções políticas e logisticamente imensas. A divisão palestina entre a Autoridade Palestina na Cisjordânia e o Hamas em Gaza significa que não existe um interlocutor palestino unificado com quem negociar.
Dentro de Israel, o espectro político deslocou-se progressivamente para a direita, com partidos que rejeitam qualquer forma de Estado palestino participando de coalizões de governo. Entre os palestinos, décadas de promessas não cumpridas e condições de vida deterioradas produziram descrença generalizada no processo diplomático. O terreno para a paz encolhe enquanto o discurso sobre ela prolifera.
Um Conflito que Pertence à Historia e ao Presente ao Mesmo Tempo
A tragédia do conflito israelense-palestino é que ele é simultaneamente muito antigo para ter solução rápida e recente o suficiente para que suas causas sejam identificáveis e seus responsáveis, ao menos parcialmente, nomeáveis. Não é obra do destino nem de deuses rivais. É produto de decisões humanas tomadas em contextos específicos por atores com interesses identificáveis, muitas das quais foram equivocadas, oportunistas ou deliberadamente cruéis.
A Grã-Bretanha plantou contradições que sabia serem explosivas porque a geopolítica imperial do momento assim convinha. As potências que aprovaram a partilha de mil novecentos e quarenta e sete aliviaram sua culpa europeia pelo Holocausto às custas de uma população que não havia participado do crime. Os países árabes vizinhos usaram a causa palestina como instrumento de política doméstica durante décadas sem jamais oferecer aos palestinos solução real. O Hamas construiu sua legitimidade política sobre o sofrimento de uma população que usa como escudo e como argumento. Israel expandiu assentamentos enquanto negociava paz, minando a credibilidade do processo que dizia apoiar.
Nenhum desses fatos cancela os outros. É possível reconhecer o direito histórico e o trauma judaico e ao mesmo tempo reconhecer o deslocamento e o sofrimento palestino. É possível condenar o terrorismo do Hamas e ao mesmo tempo condenar a morte de civis em bombardeios. A dificuldade é que o conflito, ao longo de décadas, foi estruturado por seus protagonistas e por seus aliados externos de forma a tornar essas distinções politicamente custosas. Quem tenta manter as duas perspectivas ao mesmo tempo é acusado por ambos os lados de traição ou ingenuidade.
O resultado é um conflito que continua produzindo mortos, refugiados e ruínas enquanto o mundo debate qual narrativa é a correta. A história, que é paciente e não toma partido, registra tudo com indiferença. Inclusive o fato de que, em geral, os que menos escolheram estar nessa situação são os que mais pagam por ela.
Para terminar, há algo que precisa ser observado. Este conflito local acaba dividindo opiniões pelo mundo. Aqui mesmo no Brasil, desde o início do novo conflito, debates acalorados povoam as redes sociais, promovendo a globalização de um conflito, que apesar de realmente ter consequências econômicas globais , geralmente ocorre por questões culturais , com destaque para a religião. Basta ver a quantidade de pessoas que saem às ruas enroladas na bandeira de Israel. Assim como para os Palestinos, Jesus não faz ou faz muito pouco sentido para os Israelenses, que com os cristãos, só têm em comum o Antigo Testamento.
Até a próxima.


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