Khamenei Não Abre Mão – O urânio fica no Irã

Khamenei Não Abre Mão – O urânio fica no Irã

Existe uma cena que se repete na história da diplomacia com o Irã. Americanos chegam à mesa convictos de que desta vez vai funcionar, que a pressão foi suficiente, que o interlocutor está pronto para ceder. E então Teerã faz exatamente o oposto do esperado. Com a determinação do líder supremo Mojtaba Khamenei de manter o estoque de urânio enriquecido em solo iraniano, o roteiro se repete, com a diferença de que desta vez há uma guerra em andamento e um cessar-fogo que ninguém acredita que vai durar. A ideia é clara e objetiva. O urânio não sai do país. Ponto.

Para entender o peso dessa decisão, é preciso voltar um pouco no tempo, quando os Estados Unidos e Israel atacaram as instalações nucleares iranianas em junho de 2025. Na época,  acrefitava-se que o Irã tinha quatrocentos e quarenta quilos de urânio enriquecido a sessenta por cento. Quanto sobrou desse estoque após os bombardeios? A própria agência não sabe ao certo. O diretor-geral Rafael Grossi disse em março que algo em torno de duzentos quilos estaria num complexo de túneis em Isfahan, com uma quantidade menor em Natanz. Números que os americanos querem fora do país. Números que Khamenei quer exatamente onde estão.

Trump, que raramente escolhe as palavras com cuidado, foi incisivo: “Vamos pegar. Não precisamos, não queremos. Provavelmente destruiremos depois de pegar. Mas não vamos deixar eles terem.” Discurso de campanha ou ultimato real? A diferença importa menos do que parece quando o outro lado já decidiu que não vai ceder.

Dentre tantas coisas que o governo Trump não esperava que acontecessem nesse conflito, esta talvez seja a mais reveladora. A determinação de Khamenei não é birra diplomática. É cálculo. Os líderes iranianos chegaram a uma conclusão simples: entregar o urânio seria entregar a única moeda de troca que resta. Sem isso,  o país ficaria mais exposto a novos ataques e a história recente não deixa espaço para ingenuidade. A Líbia desarmo e se lembram  como terminou.

Já Netanyahu, do lado israelense, estabeleceu três condições para considerar a guerra encerrada: retirada do urânio enriquecido, fim do apoio iraniano a milícias e eliminação da capacidade balística do Irã. É o tipo de exigência que foi feita para não ser aceita ou foi feita para prolongar o conflito por pelo menos mais alguns anos.

O cessar-fogo que existe hoje é frágil ao ponto de não merecer o nome. Começou depois dos ataques de vinte e oito de fevereiro, quando o Irã respondeu contra bases americanas nos países do Golfo e o Hezbollah voltou a entrar em cena no Líbano. Desde então, as duas partes pausaram os combates sem resolver nada. O bloqueio naval americano aos portos iranianos continua. O controle iraniano sobre Ormuz por onde passa uma fatia significativa do petróleo mundial também é. O Apesar do empenho do Paquistão em mediar, a situação não inspira muito otimismo.

Alguns iranianos falam sobre “fórmulas viáveis”. Como, por exemplo,  delas seria dispersar o estoque sob supervisão da agência de energia atômica, reduzindo o grau de enriquecimento sem transferir o material para fora do território. É o tipo de solução que permite que cada lado diga que ganhou alguma coisa. Diplomaticamente até é bonito, mas seria politicamente viável? Depende de quanto Trump precisa de uma vitória concreta para colocar aos pés de Israel  e do  quanto Khamenei pode ceder sem parecer que se rendeu.

O negociador-chefe iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf, disse na quarta-feira que “movimentos óbvios e ocultos do inimigo” indicavam que os americanos preparavam novos ataques. Trump confirmou, no mesmo dia, que os Estados Unidos estavam prontos para retomar as operações caso o Irã não chegasse a um acordo, porém sugeriu que Washington poderia esperar “alguns dias para obter as respostas certas.” Alguns dias. Em guerras que já duram meses, essa é uma unidade de tempo quase cômica.

O que fica claro, olhando para esse impasse, é que nenhum dos lados entrou nesse conflito com expectativas calibradas. Washington apostou numa campanha rápida, cirúrgica, capaz de dobrar o Irã sem um confronto prolongado. Não foi o que aconteceu. Teerã resistiu mais do que o previsto, o Estreito de Ormuz virou instrumento de pressão e o preço do petróleo virou problema de sessenta países ao mesmo tempo.

E agora, com Khamenei endurecendo a posição sobre o urânio, o conflito tende a se arrastar pelos próximos meses sem qualquer sinal real de apaziguamento. As negociações vão continuar. As declarações duras vão continuar. O cessar-fogo vai continuar sendo chamado de cessar-fogo enquanto as duas partes se preparam para o próximo movimento. É o tipo de situação que historiadores descrevem como “guerra de posições” e diplomatas chamam de “processo em curso” eufemismos para dizer que ninguém sabe quando isso acaba.

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Professor de História há 32 anos, ex-diretor do Centro de Desenvolvimento da Educação de Armação dos Búzios, autor de A Construção da Identidade Cultural Buziana, Professor- A Ressignificação do Fazer Escolar e Idiossincrasias

 

 

 

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