O tarifaço dos EUA contra o Brasil e as Eleições 2026

 

O tarifaço dos EUA contra o Brasil e as Eleições 2026

 

A nova sobretaxa, que atinge aço, alumínio e cerca de 200 códigos tarifários, não caiu do céu. Ela é resultado de uma investigação da Seção 301, mecanismo que os EUA usam há décadas pra pressionar parceiros comerciais sob alegação de práticas desleais. O documento do USTR cita o Pix, plataformas digitais, etanol, propriedade intelectual e desmatamento. Chama atenção que um sistema de pagamentos público, gratuito e aprovado por boa parte da população brasileira apareça descrito como “desvantagem injusta” pra empresas americanas do setor financeiro. Isso diz bastante sobre quem está por trás dessa pressão: setores privados perdendo competitividade tentando usar o Estado americano pra se proteger.

Chama atenção também que o governo brasileiro tenha decidido não participar da audiência pública de 6 e 7 de julho. Num processo que decide o destino de milhares de empregos na siderurgia e na metalurgia, ficar de fora da mesa de discussão é uma escolha que merece ser questionada. Silêncio nem sempre é estratégia. Às vezes é simplesmente abrir mão de um instrumento de defesa que estava disponível.

Quem sente o peso

Tarifa não atinge país de forma abstrata. Atinge cadeia produtiva e, dentro dela, os elos mais fracos primeiro. Trabalhador da siderurgia e da metalurgia no Brasil já enfrenta concorrência do aço chinês mais barato. Agora vê se fechar também a porta do principal mercado alternativo. Isso não é número de relatório, é risco real de demissão em polos como Volta Redonda, Ipatinga e Espírito Santo, cidades que dependem dessas exportações pra manter a economia local de pé.

E não é só o lado brasileiro que sente. Nos EUA, quando a demanda por um produto não reage muito ao preço, o custo da tarifa tende a ser repassado pro consumidor final. O preço do café já subiu antes mesmo da tarifa anterior entrar em vigor. Isso mostra algo importante: protecionismo raramente protege quem promete proteger. Ele só redistribui o custo entre trabalhadores dos dois países, beneficiando principalmente setores concentrados e com influência política.

O problema é maior que o Brasil

Usar declaração de emergência nacional pra justificar tarifa contra um país com quem os próprios EUA têm déficit comercial (o governo brasileiro fez questão de destacar isso) mostra como o argumento de “segurança nacional” fica frágil quando aplicado assim, meio à la carte. É um padrão que corrói a base do comércio baseado em regras acordadas, trocando isso por um jogo de força bilateral. E isso reverbera além da fronteira brasileira: outros países do Sul Global veem que nem superávit comercial garante proteção contra sobretaxa, o que mina ainda mais a confiança na cooperação internacional.

O nó com a política interna

Aqui a coisa fica mais delicada. A tarifa de 2025 foi amarrada explicitamente pela Casa Branca ao processo contra Bolsonaro, o que já era, por si só, uma interferência preocupante na Justiça de outro país. Essa nova tarifa vem com justificativa técnica diferente, mas o histórico recente deixa um pano de fundo político difícil de ignorar às vésperas da eleição.

Pro governo Lula, o tarifaço chega como desafio econômico e também como teste de narrativa a poucos meses da disputa presidencial. A oposição pode tentar usar o desgaste econômico contra o governo. O Planalto, por outro lado, deve tentar transformar isso em discurso de soberania e resposta à agressão externa, algo que costuma funcionar bem tanto com bases nacionalistas quanto progressistas. Já no campo bolsonarista, a ligação com o processo de 2025 pode servir tanto pra reforçar a tese de perseguição política quanto pra escancarar o risco de atrelar o destino econômico de trabalhadores brasileiros a uma disputa judicial pessoal.

Mas o risco mais sério aqui não é eleitoral, é institucional: usar tarifa comercial como ferramenta de pressão sobre processo judicial e eleitoral de outro país é um precedente perigoso, não importa quem se beneficie no curto prazo. Defender o Estado de Direito no Brasil significa rejeitar tanto a criminalização seletiva quanto a impunidade seletiva, e não deixar que pressão externa sirva pra desequilibrar disputa interna, seja pra qual lado for.

No fim das contas

O tarifaço de 25% é, ao mesmo tempo, uma briga comercial concreta com custo real pra trabalhador dos dois países e um sintoma de um momento em que o multilateralismo perde espaço pra barganha bilateral coercitiva. O efeito dele sobre a eleição de 2026 vai depender menos da tarifa em si e mais de quem consegue transformar isso em narrativa que mobiliza gente: soberania, trabalho ou perseguição. O desafio, pra quem valoriza democracia e direito do trabalhador, é não deixar que essa disputa geopolítica seja resolvida às custas de quem menos teve voz nela.

Contraponto factual: indústrias do setor de aço e alumínio no Brasil criticam a medida com bastante força, enquanto o Ministério da Fazenda projeta efeito limitado. Essa divergência técnica interna também vale considerar antes de qualquer conclusão fechada sobre o tamanho real do impacto.

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