Extrema direita ataca voto feminino e reacende discurso autoritário contra mulheres
A declaração de Paulo Figueiredo, neto do último presidente da ditadura militar brasileira, de que mulheres “votam mal” não é apenas uma provocação infeliz. Ela carrega o peso de uma tradição política que sempre enxergou a democracia como um privilégio de poucos, nunca como um direito de todos. O ataque ao voto feminino é na verdade um reconhecimento de que as mulheres ainda oferecem resistência à implementação das pautas conservadoras da extrema direita.
Não é coincidência que esta fala infeliz venha justamente de alguém que carrega no sobrenome a herança de um regime que suprimiu liberdades, perseguiu opositores e tratou a participação popular como ameaça. Também não é mero acaso a sua proximidade política com a família Bolsonaro, cuja trajetória recente foi marcada por ataques constantes às instituições e pela normalização de discursos autoritários. Quando eram advertidos, eles diziam que estavam sendo censurados na sua liberdade de expressão. Eles queriam liberdade de expressão para poder pedir o próprio fim da liberdade de expressão, como ocorre em toda ditadura.
Quando Paulo Figueiredo afirma que mulheres votam mal, ele não só está criticando escolhas eleitorais. Está insinuando que há cidadãos menos aptos a participar da democracia. E muita gente acredita mesmo nisso. É um raciocínio antigo. A história do voto feminino foi uma luta dura em quase todo o mundo. A Nova Zelândia foi o primeiro país a reconhecer esse direito, em mil oitocentos e noventa e três. Depois vieram Austrália, Finlândia e Noruega. No Reino Unido, as mulheres conquistaram o voto em mil novecentos e dezoito, mas o sufrágio pleno só veio dez anos depois. Nos Estados Unidos, a garantia nacional chegou em mil novecentos e vinte
No Brasil, o voto feminino começou a ser reconhecido em mil novecentos e trinta e dois, no Código Eleitoral de Getúlio Vargas, mas foi a Constituição de mil novecentos e trinta e quatro que consolidou esse direito em todo o território nacional, incorporando definitivamente as mulheres ao sistema político brasileiro.
Essa conquista foi resultado de décadas de mobilização, enfrentamento e resistência contra uma cultura política que insistia em tratar mulheres como incapazes de decidir. Os argumentos daquela época eram previsíveis. Diziam que mulheres eram emocionais demais, frágeis demais, influenciáveis demais para compreender política. Hoje a linguagem mudou, mas a essência continua a mesma. Já não se diz que mulheres são incapazes. Diz-se apenas que votam errado.
O ataque feminino não é um problema restrito ao Brasil. Na verdade, como sempre acontece, os conservadores verde e amarelos mimetizam a versão do discurso trumpista. Nos Estados Unidos cresce um movimento que passou a questionar abertamente o voto feminino. Influenciadores da extrema direita, setores religiosos ultraconservadores e figuras públicas já defendem o chamado voto familiar, no qual o marido decidiria politicamente por toda a casa. Outros vão além e pedem a revogação do sufrágio feminino.
Toda vez que uma sociedade começa a discutir quais grupos votam bem ou votam mal, ela começa a corroer a base da própria democracia. Porque democracia não é um regime em que só participa quem faz a escolha considerada correta. Democracia é justamente o contrário. É o reconhecimento de que todos têm igual valor político, independentemente de sexo, renda, religião ou posição ideológica.
A história mostra isso com clareza. Primeiro se questiona a capacidade de um grupo. Depois sua legitimidade. Por fim seus direitos.
Assim como existiram pensadores que tiveram susas ideias transformadas em direitos, como Rousseau , Voltaire e Montesquieu, se colocarmos no poder 500 políticos misóginos, racistas e elitisitas, com certeza eles farão de tudo para transformar o preconceito em lei.
É por esse motivo que a fala de Paulo Figueiredoe dos bolsonarista radicais precisam ser repudiadas com firmeza. Não apenas porque é ofensiva. Mas porque ela ajuda a banalizar uma ideia que toda democracia séria deveria rejeitar imediatamente: A ideia de que certos votos valem menos. A história mostra, toda vez que esse tipo de pensamento deixa de causar escândalo, a democracia já começou a perder terreno.


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