Como a China se tornou uma potência?
Há um momento específico, difícil de datar com precisão mas fácil de reconhecer em retrospecto, em que a China deixou de ser o lugar onde o mundo fabricava seus produtos baratos e se tornou o lugar que define as regras do jogo industrial, tecnológico e financeiro do século XXI. Esse momento não foi uma ruptura dramática. Foi o resultado de décadas de decisões pacientes, algumas geniais, algumas brutais, quase todas subestimadas pelo Ocidente que preferia enxergar na China um parceiro comercial conveniente em vez de um concorrente estratégico em formação.
A história começa, como quase tudo na China moderna, com Deng Xiaoping. Quando ele assumiu o controle efetivo do Partido Comunista no final dos anos 1970, o país era uma economia devastada por décadas de agitação maoísta, com uma população rural empobrecida, infraestrutura rudimentar e um produto interno bruto que não chegava a 200 bilhões de dólares. A revolução cultural tinha destruído o capital humano de uma geração inteira, perseguindo intelectuais, fechando universidades e substituindo conhecimento técnico por fervor ideológico. Qualquer avaliação sóbria daquela China de 1978 não encontraria muitas razões para apostar num ressurgimento em escala histórica.
Deng não fez uma revolução. Fez algo mais complicado e, em certos aspectos, mais radical: manteve o sistema político intacto enquanto desmontava a lógica econômica que o sustentava. A frase que define esse período, “não importa se o gato é branco ou preto, desde que pegue ratos”, captura a pragmaticidade que ele introduziu num ambiente onde ideologia havia sido o árbitro de todas as decisões. As Zonas Econômicas Especiais, criadas a partir de 1980 em cidades como Shenzhen e Zhuhai, foram o laboratório desse experimento: ilhas de capitalismo gerenciado dentro de um Estado socialista, onde empresas estrangeiras podiam operar, o investimento externo era bem-vindo e as leis trabalhistas eram suficientemente frouxas para tornar a produção irresistivelmente competitiva em termos de custo.
O que aconteceu nessas zonas ao longo das décadas seguintes foi uma das transferências de tecnologia e conhecimento industrial mais aceleradas da história econômica. Empresas americanas, europeias e japonesas chegaram atrás da mão de obra barata e ficaram enredadas numa relação de dependência que lhes convinha no curto prazo e as enfraquecia no longo. A China não apenas produzia; ela observava, copiava, adaptava e eventualmente melhorava. As joint ventures exigidas pelo governo chinês como condição para acesso ao mercado funcionaram, em muitos casos, como mecanismos involuntários de transferência tecnológica. Uma empresa ocidental que queria vender para o mercado chinês precisava se associar a uma empresa local. A empresa local aprendia. O Estado aprendia junto.
A entrada da China na Organização Mundial do Comércio em 2001 foi o momento em que esse processo ganhou velocidade de cruzeiro. Washington celebrou a adesão como uma vitória do livre comércio e como o início de um processo de liberalização política que a lógica da teoria da modernização supostamente tornava inevitável: economias de mercado geram classes médias, classes médias demandam direitos, direitos levam à democracia. Era uma teoria elegante e estava completamente errada no caso chinês. O que a adesão à OMC fez foi dar à China acesso irrestrito aos mercados ocidentais sem que a China precisasse abrir mão de um modelo de capitalismo de Estado que lhe permitia subsidiar indústrias estratégicas, proteger campeões nacionais e direcionar investimento com uma coordenação que nenhuma economia de mercado pura consegue replicar.
O resultado foi o que os economistas chamaram de “choque da China”, e a palavra choque é justificada. Entre 2001 e 2010, a China foi responsável por uma parcela desproporcional do crescimento do comércio global. Fábricas fecharam no meio-oeste americano, na região têxtil do sul europeu, em distritos industriais pelo mundo inteiro, incapazes de competir com custos que não refletiam apenas salários baixos, mas também subsídios estatais, câmbio gerenciado e uma escala de produção que só é possível num país de 1,4 bilhão de habitantes com planejamento industrial centralizado. O livre comércio que o Ocidente pregava era assimétrico desde o início, mas levou tempo para que essa assimetria se tornasse politicamente inaceitável.
Enquanto o mundo debatia os efeitos do choque, a China estava investindo nos próximos passos. O sistema educacional, que havia sido devastado pela revolução cultural, foi reconstruído com uma ênfase em ciência, tecnologia, engenharia e matemática que produziu, ao longo de gerações, o maior contingente de engenheiros e cientistas do mundo. Universidades como a Universidade de Tsinghua e a Universidade de Fudan passaram de instituições regionalmente relevantes para players globais em pesquisa aplicada. Estudantes chineses inundaram as melhores universidades americanas e europeias, muitos retornando ao país com formação de ponta e com contatos internacionais que aceleraram a absorção de conhecimento científico de fronteira.
O investimento em infraestrutura foi outro vetor de transformação que o Ocidente subestimou sistematicamente. Enquanto pontes envelheciam nos Estados Unidos e o debate sobre gastos de capital ficava preso em disputas orçamentárias, a China construiu a maior rede de trens de alta velocidade do mundo, modernizou portos que processam volumes de carga sem equivalente, edificou cidades inteiras onde havia campos, e instalou uma infraestrutura digital que saltou etapas do desenvolvimento ocidental. O mobile payment chegou em massa à China antes de qualquer país desenvolvido, não porque os chineses eram mais tecnológicos por natureza, mas porque o Estado criou as condições regulatórias e de infraestrutura que permitiram que o sistema se expandisse sem os obstáculos legados de um sistema bancário tradicional entrincheirado.
A Iniciativa Cinturão e Rota, lançada por Xi Jinping em 2013, foi a exportação desse modelo de desenvolvimento para o resto do mundo em desenvolvimento. Estradas, portos, ferrovias e plantas de energia espalhados por mais de 140 países, financiados por bancos estatais chineses com condições que os credores ocidentais raramente ofereciam. Havia críticas legítimas ao modelo, algumas infraestruturas eram sobredimensionadas, algumas condições de empréstimo eram opacas, alguns projetos serviam mais à projeção geopolítica chinesa do que ao desenvolvimento local. Mas havia também algo que o Ocidente não estava oferecendo: financiamento real para infraestrutura real em países que precisavam disso e que cansaram de esperar por promessas que nunca se materializavam em concreto e aço.
O desenvolvimento tecnológico chinês das últimas duas décadas é talvez o aspecto mais subestimado da ascensão do país. A narrativa ocidental durante muito tempo foi a de que a China copiava mas não inovava, que era uma potência de manufatura mas não de criação. Essa narrativa era conveniente e foi ficando progressivamente menos verdadeira até se tornar perigosamente equivocada. Empresas como Huawei, que construiu uma posição dominante em equipamentos de telecomunicações de quinta geração, BYD, que se tornou o maior fabricante de veículos elétricos do mundo, e DJI, que controla mais de 70% do mercado global de drones civis, não são exemplos de cópia. São exemplos de inovação sustentada por investimento estatal massivo, proteção de mercado doméstico e uma disposição para operar com margens menores por mais tempo do que concorrentes privados conseguem sustentar.
Os semicondutores são o campo onde essa trajetória encontrou seu limite mais claro, e é por isso que Washington decidiu que era preciso intervir. A China conseguiu dominar a fabricação de chips menos avançados mas ainda não conseguiu produzir, em escala, os semicondutores de ponta que alimentam inteligência artificial, computação de alto desempenho e sistemas de armas modernos. As restrições de exportação americanas, aplicadas com crescente rigor desde 2022, tentam preservar essa lacuna. É uma aposta arriscada: a história da indústria de semicondutores sugere que restrições externas frequentemente aceleram o desenvolvimento doméstico de capacidades alternativas, ao criar o incentivo e a urgência que o mercado sozinho não forneceria. O Japão aprendeu isso com petróleo nos anos 1970. A China pode estar aprendendo com chips agora.
Xi Jinping, que consolidou um poder pessoal sem precedentes desde Mao, representa uma inflexão no modelo chinês que vale examinar sem romantismo nem paranoia. Seu governo foi mais centralizado, mais repressivo politicamente e mais assertivo geopoliticamente do que seus predecessores imediatos. A repressão em Xinjiang, o desmantelamento da autonomia de Hong Kong, as pressões sobre Taiwan, a política de zero COVID que revelou tanto a capacidade de mobilização do Estado quanto seus limites frente a uma população que eventualmente resistiu, tudo isso compõe um quadro de um sistema que se tornou mais rígido num momento em que a complexidade dos desafios que enfrenta exigiria talvez mais flexibilidade.
A economia chinesa enfrenta hoje pressões que o modelo das últimas décadas não estava desenhado para absorver facilmente. A crise imobiliária, que estourou de forma visível com o colapso da Evergrande e contaminou uma série de outros incorporadores, revelou até que ponto o crescimento chinês havia sido sustentado por uma bolha de crédito direcionado para construção. A população está envelhecendo rapidamente, consequência de décadas de política do filho único que agora produz uma pirâmide demográfica desfavorável. A classe média, criada pelo crescimento das últimas décadas, tem expectativas que são cada vez mais difíceis de satisfazer num ambiente de desaceleração.
Nada disso significa que a ascensão da China foi revertida ou que está em colapso iminente. Significa que o país chegou a um ponto de maturidade econômica onde as fórmulas que funcionaram nas primeiras décadas do desenvolvimento precisam ser substituídas por outras mais sofisticadas e mais difíceis de executar. Mover uma economia de manufatura barata para inovação de ponta é uma transição que nenhum país fez de forma inteiramente suave, e a China não será exceção.
O que mudou de forma permanente é a posição relativa da China no sistema internacional. O país que em 1978 não tinha poder projetar além de suas fronteiras é hoje o maior parceiro comercial de mais de 120 países, o principal credor de boa parte do mundo em desenvolvimento, o líder em instalação de energia renovável, o maior mercado de veículos elétricos e uma potência militar que investe de forma consistente em capacidades que reduzem as assimetrias com os Estados Unidos. Essa transformação levou menos de cinquenta anos. Na escala da história, é um piscar de olhos.
O Ocidente preferiu, por muito tempo, enxergar essa trajetória como um processo que eventualmente produziria convergência política e econômica com os valores liberais. A China nunca prometeu isso. Construiu sua própria versão de modernidade, com características que são inequivocamente suas, e chegou ao século XXI como uma potência que não precisa mais de validação externa para se reconhecer como tal. Aprender a lidar com essa realidade, sem capitulação ingênua nem confronto desnecessário, é o desafio central da política internacional das próximas décadas. E é um desafio para o qual o Ocidente ainda não encontrou uma resposta satisfatória.
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