A Guerra que Não Terminou: como Washington usa a diplomacia para ganhar tempo no Irã
Quando J.D. Vance sentou para uma entrevista com Michael Knowles em outubro e descreveu o que a administração Trump estava fazendo no Oriente Médio, ele não revelou um segredo. Revelou uma estratégia que qualquer observador atento já suspeitava, mas que raramente um vice-presidente americano articula com essa clareza. O objetivo não era a paz. Era tempo. Tempo para estabilizar o mercado de petróleo, tempo para que países aliados recompusessem suas reservas estratégicas, tempo para que o complexo militar-industrial avaliasse se valia a pena retomar os ataques em escala total. A palavra “negociação”, nesse contexto, funciona como eufemismo para uma pausa administrada num conflito que Washington não decidiu encerrar de verdade.
O memorando de entendimento assinado entre Estados Unidos e Irã em meados de junho foi anunciado com a linguagem habitual dos acordos diplomáticos, aquela que promete um caminho para uma solução definitiva sem especificar o que essa solução seria nem quem cederia o quê. Desde então, as conversas foram interrompidas múltiplas vezes. Os dois países continuaram trocando golpes de formas variadas enquanto negociadores sentavam à mesa. O Wall Street Journal reportou que Trump aguardava reuniões com Pete Hegseth e o general Dan Kane para discutir a possibilidade de retomar ataques em escala plena contra o Irã, descrevendo internamente essa opção como “terminar o trabalho.” Nenhuma decisão final foi tomada, mas o fato de a opção estar sendo deliberada simultaneamente às negociações diz tudo sobre o grau de comprometimento americano com o processo diplomático.
O Estreito de Hormuz é onde o conflito encontra sua dimensão mais concreta. Cerca de 20% do suprimento comercial de petróleo global passava por ali diariamente antes de fevereiro, quando os Estados Unidos lançaram a campanha militar. O Irã fechou o estreito durante a maior parte das operações e, agora que está parcialmente reaberto, deixou claro que o controle é dele. Teerã estabeleceu uma política de tratamento diferenciado: países aliados ou neutros, como a China, podem transitar sem encargos; países alinhados com Washington enfrentam taxas de trânsito. Não é um bloqueio formal, mas é um sinal inequívoco de que o Irã não pretende devolver ao status quo anterior a soberania que exerce sobre aquelas águas.
O Bloomberg registrou algo que passa despercebido nas manchetes mais amplas mas que captura a mudança em curso: tanques de petróleo que anteriormente cruzavam pelo sul do estreito, próximo à costa de Omã, fizeram meia-volta e passaram a circular por uma rota diferente, ao longo da costa iraniana. Não fizeram isso por acidente. Fizeram porque comunicadores do lado iranês indicaram qual seria a rota aceita, e os operadores, calculando o risco de não cooperar, preferiram obedecer. É a soberania exercida sem declaração formal, o tipo que não aparece nos tratados mas que se manifesta no comportamento dos navios.
O Líbano é o segundo grande ponto de fratura. Teerã acusa Washington de violar o acordo porque Israel continuou seus ataques ao país, e o ministro da Defesa israelense foi explícito ao dizer que as tropas não se retirarão do sul do Líbano, da Síria ou de Gaza até novo aviso. O argumento iraniano é direto: o cessar-fogo negociado entre Washington e Teerã deveria incluir o Líbano, e se Israel continua atacando é porque os Estados Unidos permitem, o que equivale a uma violação americana do acordo. A resposta americana implícita a essa acusação é um silêncio que fala por si.
Aqui está o centro do problema que Vance acidentalmente iluminou. Os Estados Unidos entram nessa negociação sem intenção real de fazer concessões. Querem que o Irã ceda na questão nuclear, na influência regional, no controle do Estreito de Hormuz, no apoio a grupos aliados pelo Oriente Médio, e em troca oferecem a perspectiva vaga de um alívio de sanções que pode ser revertido por decreto presidencial a qualquer momento. O Irã, tendo sobrevivido a décadas de pressão econômica e agora a uma guerra declarada, não tem incentivo para aceitar condições que equivalem a uma rendição negociada. E Washington sabe disso.
Daí a pausa. Uma trégua que não é trégua, negociações que não são negociações, um memorando que serviu para acalmar os mercados de energia sem resolver nenhuma das questões que geraram o conflito. O petróleo voltou a fluir, os preços se estabilizaram, as reservas estão sendo recompostas. Se a guerra recomeçar em escala, os aliados americanos estarão em posição melhor do que estavam quando os ataques começaram. Se não recomeçar, Washington continua com pressão sobre Teerã sem o custo político e financeiro de uma campanha militar aberta.
É uma estratégia cínica e, dentro da lógica de poder que governa as relações internacionais, perfeitamente compreensível. O que a torna diferente do habitual é que o vice-presidente americano a descreveu em voz alta, numa entrevista, antes de qualquer resolução do conflito. Às vezes o que parece um deslize é apenas alguém que não vê razão para fingir.

Seja o primeiro a comentar