O caso do Paraguai é interessante porque desmonta duas ilusões muito comuns: a de que crescimento econômico resolve tudo por si só e a de que Estado mínimo é automaticamente sinônimo de prosperidade distribuída.
O país vive, de fato, um ciclo de expansão robusta. Cresceu acima da média regional, reduziu pobreza e desemprego e ganhou confiança internacional. Isso não é pouca coisa. Mas quando se olha mais de perto, percebe-se que esse “milagre” tem bases muito específicas — e contradições profundas.
Primeiro, há a energia barata, sobretudo de Usina Hidrelétrica de Itaipu e Yacyretá. Energia limpa e abundante virou ativo geopolítico central, atraindo data centers, indústria e projetos ligados à inteligência artificial. Num mundo faminto por energia, isso coloca o Paraguai numa posição estratégica.
Segundo, o agroexportador. Soja, carne e madeira continuam sendo a espinha dorsal da economia. Aqui há um ponto clássico latino-americano: o crescimento vem fortemente ancorado em commodities, o que gera riqueza, mas também vulnerabilidade climática e dependência externa.
Terceiro, o capital estrangeiro. Empresas entram atraídas por estabilidade, mão de obra barata e impostos baixos. Isso gera emprego, mas também levanta uma velha questão: quanto dessa riqueza permanece no país e quanto é repatriada?
Quarto, os baixos impostos. O Paraguai se tornou uma espécie de paraíso fiscal moderado da América do Sul. Isso favorece investimento, mas reduz a capacidade do Estado de financiar políticas públicas estruturais. E aí aparece a contradição: cresce-se rápido, mas com pouca musculatura estatal para corrigir desigualdades.
Quinto, a infraestrutura logística. A hidrovia Paraguai-Paraná e o Corredor Bioceânico podem transformar o país em eixo continental de circulação de mercadorias. Isso amplia competitividade e integração regional.
Mas o ponto central é outro: quem está se beneficiando desse crescimento?
Os dados mostram um problema estrutural: cerca de 60% do trabalho segue informal e o índice de desigualdade continua alto. Ou seja, o PIB cresce, mas boa parte da população ainda está fora da proteção previdenciária, da estabilidade salarial e do acesso pleno a direitos sociais.
Esse é o dilema clássico do neoliberalismo periférico: crescimento sem redistribuição consistente.
Sob o governo de Santiago Peña, o Paraguai se consolida como laboratório de uma economia ortodoxa, aberta ao capital e fiscalmente leve. Funciona? Sim, no curto prazo. Mas o desafio histórico será converter esse boom em desenvolvimento real.
Porque crescimento não é a mesma coisa que justiça social. Se a riqueza continuar concentrada, o “milagre paraguaio” pode acabar sendo apenas mais um capítulo da velha história latino-americana: muito crescimento no topo e pouca transformação na base. Apesar do seu crescimento, não podemos esquecer a tradição histórica de desigualdade que caracteriza toda a América Latina.

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