O Pix, Trump e o Brasil que não quer mais ser tratado como republiqueta
Lula escolheu Catalão, no interior de Goiás, para dizer em voz alta o que muita gente no governo já vinha cochichando nos corredores: o Brasil não vai engolir calado as investidas de Washington contra o Pix. A frase que ele soltou no evento desta terça-feira tem a deixa certeira de quem sabe que o assunto repercute bem no país, mas também carrega um peso político real que vai muito além do palanque. “O Brasil não aceita ser tratado como uma republiqueta de banana.” É o tipo de afirmação que, dita por qualquer outro presidente em outro contexto, poderia soar como retórica vazia. Vindo agora, na sequência do relatório do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, funciona como uma resposta direta a uma provocação direta.
O relatório do USTR, divulgado na segunda-feira, é a formalização de uma investigação que durava um ano e que nunca foi muito discreta nas suas intenções. O argumento central é que o Pix, por ser público e gratuito, prejudica “injustamente” empresas como Visa, Mastercard e WhatsApp Pay. Leia essa frase com calma. O sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central do Brasil, que beneficia dezenas de milhões de brasileiros que passaram a transferir dinheiro sem pagar taxa alguma, é classificado como prática desleal porque concorre com carteiras digitais e bandeiras de cartão norte-americanas. Há algo quase didático nessa lógica, no sentido de que ela revela sem pudor como funciona a pressão comercial americana quando envolve mercados emergentes que ousam criar infraestrutura própria.
Lula não perdeu tempo em rebater o argumento e aproveitou para incluir uma provocação que, na boca dele, soou quase como uma piada séria: ele disse ter sugerido a Trump que os Estados Unidos adotassem o Pix. “O Pix assusta eles”, afirmou, e a escolha do verbo não é casual. Assustar não é o mesmo que incomodar. Assustar sugere que há algo ali que eles não sabem bem como controlar. A infraestrutura pública de pagamentos do Brasil, que processa volumes superiores ao das bandeiras de cartão tradicionais, virou uma espécie de espelho incômodo para um modelo de negócios que depende justamente da ausência de alternativas gratuitas.
O que torna a situação ainda mais irritante, pelo menos do ponto de vista do governo brasileiro, é o timing. Lula e Trump se reuniram na Casa Branca em maio, num encontro que gerou a promessa de 30 dias de negociações para resolver as pendências comerciais. O presidente brasileiro até levou documentos mostrando que, nos últimos 15 anos, os Estados Unidos acumularam superávit comercial de US$ 415 bilhões nas trocas com o Brasil. Não é uma relação de explorado e explorador, no sentido clássico, pelo menos não no campo da balança comercial. E mesmo assim o relatório saiu, antes do prazo, com recomendação de tarifa de 25% sobre parte dos produtos brasileiros.
Lula quer uma ligação de Trump. Pediu publicamente, com aquela mistura característica de informalidade e pressão política que marca seu estilo. “Você me deve uma reunião e eu devo uma para você”, disse, lembrando o combinado dos 30 dias e afirmando que o acordo de tarifas não pode ter a anuência do presidente americano porque foi feito “na sua ausência e na minha ausência.” É uma saída elegante para dizer que alguém em Washington agiu por conta própria, ou que a mão direita não sabia o que a esquerda estava fazendo. Trump ou não sabia do relatório, ou sabia e deixou sair mesmo assim. Nenhuma das duas hipóteses é particularmente reconfortante para Brasília.
O que está em jogo não se resume ao Pix. O sistema de pagamentos é o símbolo mais visível da disputa, mas o relatório do USTR toca em várias outras práticas brasileiras classificadas como barreiras ao comércio americano. O governo e as empresas afetadas têm até 15 de julho para se manifestar antes que os Estados Unidos possam adotar as chamadas “medidas corretivas.” É um prazo curto para uma negociação que vai exigir muito mais do que boa vontade dos dois lados.
Há quem leia esse movimento americano como mais uma peça do tabuleiro protecionista de Trump, que já aplicou pressão semelhante a parceiros muito maiores e mais estratégicos do que o Brasil. Há quem veja nele uma tentativa de frear o avanço de modelos de infraestrutura digital pública que, se se espalharem pelo mundo em desenvolvimento, podem corroer seriamente o mercado das fintechs e das bandeiras americanas. As duas leituras provavelmente estão certas ao mesmo tempo.
O Pix virou, quase sem querer, um argumento de soberania tecnológica. Não foi concebido com essa grandiosidade, nasceu como uma solução de eficiência para o sistema financeiro brasileiro, mas ganhou uma dimensão que vai além da conveniência de transferir dinheiro numa madrugada de domingo sem pagar tarifa. Que esse sistema seja agora visto como ameaça suficiente para entrar em um relatório de “práticas desleais” do governo americano diz menos sobre o Brasil e mais sobre a fragilidade de um modelo de negócios que sempre dependeu de não ter concorrência pública. Quando o Estado resolve fazer, e fazer bem, o mercado privado precisa se reinventar. Ou reclamar em Washington.

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