Eleições 2026 – Por que você deveria estar preocupado (a)?

Eleições 2026 – Por que você deveria estar preocupado (a)?l

Existe um documento que circula desde esta semana nos bastidores políticos brasileiros e que merece mais atenção do que tem recebido. Trata-se de uma carta assinada pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, endereçada ao senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro. O conteúdo, divulgado pelo jornal O Globo na última sexta-feira, levanta questões que vão muito além de uma disputa comercial sobre tarifas. Levanta questões sobre soberania, sobre os limites da interferência estrangeira em processos eleitorais e sobre o tipo de compromisso que um candidato brasileiro está disposto a firmar com Washington antes mesmo de ser eleito.

O pano de fundo é o seguinte. No início de junho, Flávio enviou uma carta a Rubio pedindo que o governo Trump desistisse de impor tarifas de vinte e cinco por cento sobre uma longa lista de produtos brasileiros, medida anunciada pelo Escritório Comercial dos Estados Unidos sob a justificativa de práticas comerciais consideradas desleais. Na carta, o senador argumentou que o tarifaço causaria sérios danos à população brasileira. Também aproveitou para dizer que confiava em sua vitória nas eleições de outubro e sugeriu a criação de uma equipe de transição para aproximar um eventual governo seu da administração Trump. E encerrou com a frase que, em qualquer tradição diplomática minimamente séria, causaria constrangimento: God bless America, and God bless Brazil.

A resposta de Rubio chegou na terça-feira, vinte e três de junho. O secretário rejeitou o pedido sobre as tarifas sem cerimônia, reafirmando que as investigações comerciais apontam irregularidades do lado brasileiro e que a decisão sobre eventuais sanções pertence ao escritório do representante comercial americano. Mas foi em outro trecho da carta que está o ponto mais delicado. Rubio escreveu que observava com otimismo a expectativa de Flávio em relação às eleições de outubro e agradeceu sua oferta generosa de colocar uma equipe de transição à disposição dos Estados Unidos caso fosse eleito.

Generosa. A palavra escolhida por Rubio é reveladora. Em linguagem diplomática, generoso descreve uma concessão que beneficia quem recebe, não quem oferece. Traduzindo: um candidato brasileiro se ofereceu para colocar a estrutura de seu eventual governo à disposição de uma potência estrangeira, e essa potência considerou a oferta vantajosa o suficiente para agradecer por escrito.

Isso não é cooperação internacional. Não é diplomacia de transição. É a antecipação de um compromisso de subordinação firmado durante uma campanha eleitoral, antes de qualquer mandato, sem qualquer respaldo democrático, com uma nação que simultaneamente ameaça impor tarifas bilionárias contra a economia brasileira.

A divulgação da carta de Rubio coincidiu com o período em que a campanha de Flávio tentava conter o desgaste causado pela foto de Trump ao lado do senador no Salão Oval, publicada no mesmo dia em que os Estados Unidos anunciaram a investigação comercial contra o Brasil, o que alimentou críticas sobre possível interferência eleitoral. A cronologia, por si só, já seria suficiente para gerar perguntas incômodas. A carta de Rubio transformou essas perguntas em fatos documentados.

Há um padrão que se repete nos países onde a extrema direita trumpista encontrou terreno fértil. A Argentina de Javier Milei. El Salvador de Nayib Bukele. Honduras. Em todos esses casos, a relação com Washington não foi construída sobre reciprocidade entre países soberanos, mas sobre alinhamento ideológico em troca de legitimidade política e apoio nas urnas. O modelo é simples: o candidato entrega o alinhamento antes de ser eleito, Washington sinaliza aprovação, e essa aprovação é usada como ativo de campanha junto ao eleitorado local que admira o poder americano.

Flávio não divulgou nem fez qualquer comentário público sobre o conteúdo da carta de Rubio após sua divulgação. O silêncio é compreensível. Qualquer comentário implicaria admitir que a carta existe, que seu conteúdo é o que é, e que a palavra generosa foi usada por um dos mais altos funcionários do governo americano para descrever a oferta de um candidato brasileiro de colocar sua eventual equipe de governo à disposição de Washington.

Vale lembrar que os temas em disputa entre Brasil e Estados Unidos não são questiúnculas burocráticas. Rubio reafirmou na carta críticas americanas ao Pix, ao comércio digital, às tarifas consideradas preferenciais, à proteção à propriedade intelectual e ao acesso ao mercado de etanol. São setores que movimentam centenas de bilhões de reais na economia brasileira e afetam diretamente a vida de trabalhadores e empresas que nunca ouviram falar de uma carta trocada entre um senador brasileiro e o secretário de Estado americano em junho de dois mil e vinte e seis.

A questão central, portanto, não é se Flávio tem o direito de se comunicar com representantes de governos estrangeiros. Tem. A questão é o que ele ofereceu nessa comunicação e o que espera receber em troca. Uma equipe de transição à disposição dos Estados Unidos é, na prática, a promessa de que as primeiras decisões de um eventual governo Flávio serão alinhadas com os interesses americanos antes de qualquer consulta ao Congresso Nacional, antes de qualquer debate público, antes de qualquer mandato democrático conferido pelo povo brasileiro.

Isso não é moderação. Não é pragmatismo. É a versão documentada, em papel timbrado do Departamento de Estado americano, do que a extrema direita trumpista chama de parceria e que qualquer dicionário de relações internacionais classificaria de forma diferente.

Há uma diferença fundamental entre governar com alinhamento internacional e entregar instrumentos de governo a um país estrangeiro antes de receber um único voto. Ditaduras frequentemente são apresentadas como modelos de eficiência e ordem. O que os seus apoiadores costumam esquecer é que, nesses regimes, os problemas não desaparecem: simplesmente deixam de ser noticiados. A carta de Rubio não precisou de censura para passar despercebida alguns dias. Precisou apenas do silêncio calculado de quem a recebeu.

O povo brasileiro vai às urnas em outubro. Antes disso, merece saber exatamente o que foi prometido em seu nome, por quem, a quem e em troca do quê.

O Brasil já esteve diversas vezes nesta condição na qual pessoas que lucram com a subordinação do Brasil praticam o entreguismo em troca de apoio político e de legitimidade via força dos canhões.   As próximas eleições serão sobre a sobrevivência ou fim da democracia no último reduto de resistência contra o autoritarismo da extrema direita na América: O Brasil com “S”.

 

Professor de História há 32 anos, ex-diretor do Centro de Desenvolvimento da Educação de Armação dos Búzios, autor de A Construção da Identidade Cultural Buziana, Professor- A Ressignificação do Fazer Escolar e Idiossincrasias

 

 

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