Quando a extrema direita precisa do democrata: o que o encontro de Lula e Trump revela sobre a nova ordem global

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Quando a extrema direita precisa do democrata:
o que o encontro de Lula e Trump revela sobre a nova ordem global

Durante meses, o governo Trump tentou interferir na justiça brasileira, impôs tarifas punitivas e usou instrumentos de pressão econômica contra o Brasil. Depois disso tudo, Trump recebeu Lula na Casa Branca e o chamou de “dinâmico”. Entender esse paradoxo é entender como o poder funciona no século vinte e um.|

O paradoxo que precisa ser nomeado

Donald Trump representa a extrema direita americana, um movimento que combina nacionalismo econômico agressivo, desconfiança das instituições multilaterais e disposição para usar o poder do Estado como instrumento de pressão política, inclusive sobre países soberanos. Luiz Inácio Lula da Silva, por sua vez, é um líder de orientação keynesiana que aposta no papel ativo do Estado na economia, na redistribuição de renda e na cooperação internacional como pilares do desenvolvimento. São visões de mundo não apenas diferentes, mas estruturalmente opostas.

E ainda assim, na tarde do dia sete de maio de dois mil e vinte e cinco, eles passaram três horas juntos no Salão Oval, almoçaram filé de carne e Trump encerrou o encontro chamando Lula de “dinâmico” nas redes sociais. Para quem acompanhou os últimos meses da relação entre os dois países, esse desfecho é, no mínimo, desconcertante.

Porque o que antecedeu esse encontro não foi cordialidade. Foi confronto.

Nos meses anteriores ao encontro, o governo Trump impôs tarifas de cinquenta por cento sobre produtos brasileiros, aplicou a Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, pressionou abertamente o Brasil em relação ao processo judicial contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e usou canais diplomáticos para tentar influenciar decisões do Judiciário brasileiro. Nenhuma dessas tentativas foi bem-sucedida. E todas elas tornaram o encontro de maio de dois mil e vinte e cinco ainda mais carregado de significado.

 

A derrota silenciosa que virou foto na Casa Branca

Para compreender o peso simbólico do encontro, é necessário recuperar o contexto. Quando Trump voltou ao poder em janeiro de dois mil e vinte e cinco, uma de suas primeiras movimentações foi mobilizar instrumentos de pressão contra o Brasil. A narrativa utilizada foi a defesa de Bolsonaro e a crítica ao que o governo americano chamou de perseguição política. Na prática, tratava-se de uma tentativa inédita de interferência direta nos processos judiciais de um país soberano e aliado histórico dos Estados Unidos.

O Brasil não cedeu. O processo contra Bolsonaro continuou. O ministro Alexandre de Moraes não recuou. E as instituições brasileiras, apesar da pressão externa, mantiveram sua autonomia. Em termos de política interna, o governo Lula saiu fortalecido por ter resistido sem romper relações.

Quando Trump recebeu Lula na Casa Branca poucos meses depois e o elogiou publicamente, estava, na prática, reconhecendo que a estratégia de pressão havia falhado. Não de forma declarada, obviamente. Trump não admite derrotas em voz alta. Mas a foto, o elogio e a reunião de três horas comunicam, para quem sabe ler os sinais da diplomacia, que Washington precisou recalibrar sua postura em relação a Brasília.

“A extrema direita americana tentou dobrar o Brasil pela força econômica e pela pressão judicial. Quando isso não funcionou, mandou flores. Isso tem nome: é a lógica do interesse sobrepondo a ideologia.”

Por que Trump precisou recuar

A resposta está na geopolítica, não na diplomacia de protocolo. O Brasil é insubstituível para a agenda de Trump em pelo menos três dimensões que nenhum discurso ideológico consegue contornar.

A primeira é a questão dos minerais estratégicos. O Brasil possui uma das maiores reservas de terras raras do planeta, além de lítio, nióbio e outros elementos essenciais para a indústria de defesa e a transição energética. Num contexto em que os Estados Unidos tentam reduzir sua dependência da China nessa área, afastar o Brasil com pressões políticas seria entregar ao rival aquilo que se estava tentando disputar.

A segunda dimensão é o abastecimento alimentar. A carne bovina e o café brasileiros já foram incluídos nas isenções tarifárias americanas precisamente porque pressionar o Brasil com tarifas elevadas num contexto de inflação doméstica americana seria um tiro no próprio pé. O eleitor americano sente no bolso o preço da carne, não o nome do país de origem.

A terceira, frequentemente negligenciada nos noticiários, é a liderança regional. O Brasil é o único país da América do Sul com capacidade real de exercer influência continental. Uma relação rompida com Brasília significaria entregar o campo livre para Pequim e Moscou num continente que Washington ainda considera seu quintal estratégico. A conta não fecha para nenhuma potência que pense em termos de longo prazo.

 A equação que Trump não podia ignorar

Isolar o Brasil significaria empurrar a maior economia sul-americana para mais perto da China, justamente no momento em que os Estados Unidos tentam construir uma coalizão global para conter a expansão de Pequim. Em geopolítica, contradições desse tamanho têm custo. E o governo Trump, pragmático acima de qualquer coerência ideológica, escolheu absorver o custo político do recuo em vez de arcar com o custo estratégico do isolamento.

O que Lula ganhou e o que isso significa para o Brasil

Do ponto de vista brasileiro, o encontro representa uma vitória diplomática de múltiplas camadas. A mais visível é a imagem: Lula sendo recebido com elogios pelo líder da extrema direita que havia tentado interferir em seus processos judiciais internos. Para o público internacional, é a confirmação de que o Brasil não é um país que cede a pressões externas sobre suas instituições.

Para o público doméstico, o impacto é igualmente relevante. Com eleições presidenciais se aproximando em dois mil e vinte e seis, o principal argumento do campo bolsonarista era que o governo Lula havia isolado o Brasil de Washington e que apenas a família Bolsonaro tinha trânsito com Trump. Essa narrativa ficou consideravelmente mais difícil de sustentar após a foto no Salão Oval e o elogio público do presidente americano.

Existe também uma dimensão menos óbvia, mas talvez a mais duradoura. Ao resistir às pressões de Trump e ainda assim chegar a um encontro produtivo sem concessões visíveis nas questões institucionais, o governo brasileiro estabeleceu um precedente: é possível manter relações funcionais com Washington sem abrir mão da soberania judicial e política. Esse precedente tem valor para além das eleições de dois mil e vinte e seis.

As tarifas: a batalha tática ainda em aberto

O resultado concreto mais imediato foi a criação de um grupo de trabalho entre as equipes comerciais dos dois países para negociar as tarifas que ainda incidem sobre produtos brasileiros. Uma sobretaxa de dez por cento vence em julho e há uma investigação americana em andamento sobre supostas práticas comerciais desleais do Brasil, incluindo alegações sobre a origem de exportações de madeira, que o governo Lula nega categoricamente.

A criação do grupo de trabalho foi considerada uma vitória tática pela delegação brasileira. Ela compra tempo, evita a imposição imediata de novas tarifas e abre um canal de negociação formal. Mas seria precipitado interpretar isso como encerramento do conflito comercial. A estrutura das disputas permanece. O que mudou foi o ambiente em que essas disputas serão conduzidas. E em diplomacia, ambiente importa tanto quanto conteúdo.

“Trump não resolveu o conflito comercial com o Brasil. Ele escolheu não escalá-lo. Por ora. E essa distinção é fundamental para entender o que ainda pode vir.”

A imprensa driblada e a nova linguagem da diplomacia

Um dos detalhes mais reveladores do encontro foi a ausência de coletiva conjunta no Salão Oval. A versão oficial brasileira é que Lula pediu esse formato para garantir uma conversa mais direta. A leitura geopolítica aponta para uma estratégia deliberada e bem calibrada.

Trump tem histórico bem documentado de usar coletivas de imprensa como palco para declarações imprevisíveis que comprometem seus interlocutores. Líderes europeus, asiáticos e latino-americanos já saíram de encontros com Trump com surpresas desagradáveis nascidas exatamente diante das câmeras. Ao eliminar esse momento, o lado brasileiro removeu o principal vetor de risco da reunião: a possibilidade de que um comentário espontâneo de Trump sobre Bolsonaro, Alexandre de Moraes ou qualquer outro tema sensível desfizesse meses de preparação diplomática em trinta segundos.

Isso revela algo mais amplo sobre como a diplomacia funciona na era das redes sociais e dos líderes impulsivos. Ela não é mais conduzida principalmente em documentos e declarações formais. É conduzida na gestão de percepções, narrativas e momentos simbólicos. A foto, o aperto de mão, o elogio no Truth Social e as três horas de duração comunicam tanto quanto qualquer comunicado oficial. Às vezes, mais.

O Brasil entre dois mundos: uma posição que exige equilíbrio permanente

Existe uma tensão estrutural que o encontro de Washington não resolve. O Brasil está simultaneamente fortalecendo sua relação com os Estados Unidos e aprofundando sua parceria com a China, que é seu principal parceiro comercial há mais de quinze anos consecutivos. Essa posição de equilíbrio não é nova na diplomacia brasileira.

Durante a Guerra Fria, o Brasil oscilou entre alinhamento e autonomia, nunca se comprometendo completamente com nenhum dos blocos. A diferença hoje é que o grau de polarização entre Washington e Pequim aumentou substancialmente. Num ambiente onde os Estados Unidos pressionam aliados a escolher lados, a posição de equilíbrio que o Brasil tenta manter se torna progressivamente mais custosa.

O encontro de maio de dois mil e vinte e cinco demonstra que o Brasil, pelo menos por ora, conseguiu navegar essa tensão sem se comprometer excessivamente com nenhum dos lados. Mas a janela para esse tipo de equilíbrio pode estar se estreitando à medida que a competição global se intensifica. A história raramente permite que países médios permaneçam indefinidamente no meio do caminho quando os grandes polos se choca Paralelo histórico

Em fevereiro de mil novecentos e setenta e dois, Richard Nixon, um anticomunista fervoroso, visitou a China de Mao Tsé-Tung num gesto que chocou o mundo mas abriu décadas de cooperação sino-americana. A lição permanece válida: em geopolítica, interesses pragmáticos sempre superam, no longo prazo, distâncias ideológicas. O que mudou é que hoje esse pragmatismo opera em velocidade muito maior e com muito menos discrição.

O que fica depois dos elogios

Quando a poeira baixar, o que restará do encontro entre Lula e Trump na Casa Branca será algo mais sutil do que qualquer acordo comercial ou declaração conjunta. Restará a demonstração de que o Brasil tem capacidade de jogar no tabuleiro das grandes potências sem se subordinar a nenhuma delas, e de que resistir a pressões externas sobre suas instituições não precisa significar isolamento.

Para Lula, o encontro foi uma vitória em pelo menos três dimensões simultâneas: diplomática, ao normalizar relações com Washington sem concessões institucionais; simbólica, ao aparecer ao lado de Trump num momento em que a extrema direita o havia usado como alvo; e eleitoral, ao desmontar a narrativa de que o campo progressista brasileiro seria incompatível com os Estados Unidos.

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Para o Brasil como país, o encontro abre espaço para negociações comerciais mais equilibradas e consolida a posição de interlocutor relevante num mundo em reorganização. Mas não resolve as tensões estruturais. As tarifas seguem em negociação. A investigação comercial continua. E a pressão entre os dois polos do sistema internacional, Estados Unidos e China, não vai diminuir.Trump chamou Lula de “dinâmico”. No vocabulário da extrema direita transacional, isso significa alguém com quem se pode fazer negócio, independente de qualquer diferença ideológica. Num mundo que está trocando valores por interesses, ser reconhecido como parceiro útil por quem tentou te pressionar é, paradoxalmente, uma forma sofisticada de poder.

Por fim, apesar de toda a investida e taetativa de sabotagem digna de filmes de Hollywood protagozada pelo filho do ex-presidente Bolsonaro,  o agora ex-deputado Eduardo Bolsonaro ( que preferiu abandonar seus eleitores para fazer campanha contra o seu próprio país no exterior) o baile seguiu em frente. As sanções ocorreram,  mas arrefeceram, a tensão aumentou , mas aos poucos se distendeu, revelando que na contra-mão da loucura fundamentalista trafegam os interesses financeiros e o desejo de continuar se valendo das nossas riquezas aqui no Sul Global.

 
Professor de História há 32 anos, ex-diretor do Centro de Desenvolvimento da Educação de Armação dos Búzios, autor de A Construção da Identidade Cultural Buziana, Professor- A Ressignificação do Fazer Escolar e Idiossincrasias

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