Guerra com o Irã expõe fragilidade global e força 60 países a reagirem à crise de energia

Guerra com o Irã expõe fragilidade global e força 60 países a reagirem à crise de energia

 

Um mês depois do início do confronto envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, o impacto já ultrapassava o campo militar. A crise energética que se seguiu obrigou governos ao redor do mundo a reagir com rapidez. Levantamento da Carbon Brief aponta que cerca de sessenta países adotaram medidas emergenciais diante da instabilidade no fornecimento de energia.

 

Até agora, foram anunciadas quase duzentas iniciativas. A maioria tenta conter o avanço dos preços, aliviar o peso sobre a população e garantir que o abastecimento interno não entre em colapso. Para chegar a esse panorama, a análise reuniu dados da Agência Internacional de Energia, relatórios públicos e monitoramento independente, justamente no momento em que um cessar-fogo temporário começava a ser discutido.

 

Desde o fim de fevereiro, a guerra atingiu diretamente a infraestrutura energética da região. Instalações de gás foram bombardeadas, terminais estratégicos sofreram ataques e o Irã decidiu bloquear o Estreito de Ormuz. Trata-se de uma das rotas mais sensíveis do planeta. Por ali passa uma parcela significativa do petróleo e do gás natural liquefeito consumidos no mundo. Quando esse fluxo é interrompido, o efeito não demora a aparecer nos preços.

Sem conseguir manter o volume habitual de exportações, o mercado reagiu com alta imediata. Em diferentes continentes, governos passaram a agir quase ao mesmo tempo, cada um dentro de suas possibilidades. Reduzir impostos sobre combustíveis foi o caminho mais frequente. Aproximadamente trinta países seguiram essa direção, tentando dar algum alívio a consumidores já pressionados.

Nem todos, porém, responderam da mesma forma. Enquanto alguns aceleraram projetos de energia renovável, outros preferiram recorrer a soluções mais imediatas. Japão, Itália e Coreia do Sul, por exemplo, ampliaram o uso de carvão como alternativa temporária. Não se trata de uma escolha confortável, mas de uma resposta diante da urgência.

Na Ásia, onde a dependência do petróleo do Oriente Médio é maior, as medidas foram mais duras. Em certos países, o cotidiano da população mudou. Houve restrições à circulação de veículos, racionamento e até suspensão de atividades para reduzir o consumo. Não foi uma decisão teórica, mas uma tentativa de evitar o desabastecimento.

O ponto de ruptura veio com a ofensiva inicial, no final de fevereiro. A partir dali, ataques sucessivos atingiram instalações estratégicas. Um dos episódios mais sensíveis envolveu uma grande unidade de gás no Catar. Em paralelo, alvos dentro do Irã também foram atingidos. O bloqueio do Estreito de Ormuz acabou sendo o fator mais decisivo. A própria Agência Internacional de Energia descreveu a situação como a maior interrupção já registrada no fornecimento global de petróleo.

Grande parte desse fluxo tem como destino a Ásia. Sem ele, a pressão sobre os preços se espalhou rapidamente. Governos passaram a agir para conter o impacto imediato, tentando proteger suas economias e evitar um efeito em cadeia.

Mesmo com o anúncio de uma trégua de duas semanas, o cenário continua incerto. Os danos à infraestrutura não se resolvem no curto prazo, e o mercado ainda reage ao risco de novos episódios.

 

Ao analisar as respostas nacionais, a Carbon Brief identificou cento e oitenta e cinco medidas diferentes. A concentração maior aparece no leste e no sul da Ásia, regiões mais expostas à interrupção do fornecimento. Países como Índia, Japão e Coreia do Sul já destinam bilhões para subsidiar combustíveis, numa tentativa de evitar que o custo recaia integralmente sobre a população.

 

Em alguns casos, as decisões foram além do campo econômico. Nas Filipinas, foi decretado estado de emergência. Prédios públicos passaram a limitar o uso de ar-condicionado e o transporte coletivo recebeu incentivos. Em Bangladesh, o governo pediu redução no consumo de energia. No Paquistão, limites de velocidade foram ajustados para economizar combustível. Medidas simples, mas que revelam a dimensão do problema.

 

A Europa, marcada pela crise energética de dois mil e vinte e dois, enfrenta o momento atual com alguma vantagem, embora ainda dependa de importações. Mesmo assim, vários países adotaram ações para conter o impacto dos preços. A Espanha, com maior participação de energia renovável, anunciou um pacote bilionário de apoio aos consumidores.

 

Na África, o efeito aparece de outra forma. Mesmo com menor dependência direta do Golfo Pérsico, o aumento nos custos de importação pressiona economias já fragilizadas. Em alguns países, a escassez de combustível se tornou uma realidade concreta.

 

Já nas Américas, o impacto é mais limitado até aqui. Ainda assim, há exceções. O Chile, por depender de importações, sente de forma mais direta a alta dos preços internacionais.

 

Entre as medidas adotadas, a redução de impostos se destaca como a mais comum. Países como Brasil, Itália e Austrália seguiram esse caminho. Outros optaram por limitar preços ou criar subsídios direcionados a setores mais vulneráveis. São decisões que aliviam no curto prazo, mas que também levantam dúvidas sobre efeitos futuros, como o aumento da inflação ou a manutenção da dependência de combustíveis fósseis.

Especialistas têm chamado atenção para alternativas mais sustentáveis do ponto de vista fiscal. Reduzir o consumo, por meio de políticas públicas, tende a gerar menos pressão sobre os cofres públicos. Não por acaso, várias iniciativas focaram no transporte, com incentivos ao uso coletivo e restrições ao uso de veículos particulares.

Ao mesmo tempo, a crise reacendeu um debate que parecia encaminhado. Alguns países decidiram rever seus planos de abandono do carvão. Em muitos casos, trata-se apenas de adiar fechamentos ou ampliar o uso de estruturas já existentes. Ainda assim, o movimento revela como momentos de instabilidade podem alterar prioridades.

Por outro lado, também surgem sinais de mudança em direção oposta. Há governos que passaram a tratar a energia renovável não apenas como uma escolha ambiental, mas como uma necessidade estratégica. Índia, Reino Unido e até pequenas economias insulares começaram a defender uma transição mais rápida.

Esse movimento não produz efeito imediato. A construção de novas fontes de energia leva tempo, embora seja mais ágil do que grandes projetos baseados em combustíveis fósseis. Enquanto isso, soluções intermediárias ganham espaço. Incentivos a veículos elétricos, por exemplo, começam a aparecer como parte dessa adaptação.

No fundo, a crise atual expõe uma fragilidade antiga. A dependência de rotas e fornecedores concentrados transforma qualquer conflito regional em um problema global. Alguns governos já dão sinais de que pretendem rever essa dependência, ainda que de forma gradual.

O que se vê, neste momento, é menos uma resposta coordenada e mais um conjunto de tentativas. Cada país reage com os instrumentos que possui, tentando atravessar um cenário que ainda está longe de se estabilizar.

Neste cenário, os que mais  sofrem são justamente os que nada têm a ganhar com os negócios bilionários que movimentam este conflito. Todo o caos promovido que nasce de uma guerra destrói primeiro as condições básicas de sobrevivência dos mais pobres, nos lembrando, de forma dolorosa  que os interesses econômicos se sobrepõem à própria dignidade humana.

Os próximos dias nos revelarão o que perseverará: se a tomada de consciência pelos responsáveis pelo conflito ou a insanidade provocada pela necessidade de lucro.

Assista no YouTube

https://youtu.be/pjp2Ucxkumw?si=eLW4VRHG7ffkIzaL

 

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