Daniel Vorcaro tenta de novo.
A primeira versão não convenceu ninguém. A Polícia Federal a rejeitou. A PGR considerou as informações fracas. O ministro André Mendonça, relator dos inquéritos do Master no STF, não escondia o ceticismo. E o advogado que conduzia as negociações, Luis Oliveira Lima, o Juca, saiu da defesa em 22 de maio, deixando o ex-banqueiro Daniel Vorcaro numa posição delicada: preso, com a delação travada, e precisando recomeçar.
Na segunda-feira, a defesa voltou à mesa. Apresentou uma nova proposta à Polícia Federal e à PGR. Na terça, adendos foram acrescentados ao texto. O movimento foi confirmado pela Folha de S.Paulo depois de divulgado pela TV Globo. Quem conduz as tratativas agora é o advogado Sérgio Leonardo, que conhece Vorcaro desde a juventude, o que em tese significa que há uma relação de confiança pessoal por baixo das negociações jurídicas. Se isso ajuda ou complica o processo, é difícil saber. Acordos de colaboração dependem de informações, não de afeto.
O histórico recente não é animador para Vorcaro. A PF rejeitou a primeira versão, mas voltou à mesa uma semana depois. Mendonça autorizou o retorno do ex-banqueiro a uma cela especial na superintendência da PF em Brasília, que era onde ele ficava enquanto relatava os termos do acordo a seus advogados. Isso sugere que há uma avaliação de que o processo ainda tem futuro, mesmo que a primeira rodada tenha sido decepcionante para quem investigava.
O que Vorcaro tem para oferecer é a questão central de tudo isso. O cenário investigativo ao redor do Master é vasto. Um levantamento já apontou que um fundo ligado ao banco comprou R$ 3,6 bilhões em créditos relacionados a operações suspeitas envolvendo o próprio Vorcaro, numa estrutura que teria servido para retirar empréstimos problemáticos do balanço do banco e transferir riscos para fundos de investimento. Há também a investigação paralela sobre o fundo americano Havengate, os R$ 61 milhões que teriam saído de empresa ligada a Vorcaro supostamente para financiar um documentário sobre Jair Bolsonaro, e a suspeita de que parte desse dinheiro bancou despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
O problema da primeira proposta de delação, segundo quem avaliou, era que as informações não correspondiam à expectativa gerada pelo tamanho e pela complexidade do caso. Quando alguém está no centro de uma investigação desse porte, com ramificações que tocam num ex-presidente, num ex-deputado vivendo no exterior, num ministro do STF e numa operação financeira de bilhões, os investigadores esperam que o colaborador entregue algo à altura. Se o que foi oferecido inicialmente parecia pouco, a pergunta óbvia é por que, e se a nova versão vai diferir substancialmente ou apenas ajustar a embalagem.
Acordos de delação raramente são lineares. É comum que as primeiras versões sejam rejeitadas ou consideradas insuficientes, que o processo volte à estaca zero, que os advogados troquem de lado e que novas tentativas sejam feitas com enquadramentos diferentes. O que não costuma acontecer é que investigadores rejeitem uma proposta e depois voltem à mesa sem que algo tenha mudado do outro lado. A volta da PF às negociações, mesmo depois da rejeição, indica que ainda há interesse no que Vorcaro pode dizer, seja porque o que ele tem é mais substancial do que pareceu na primeira entrega, seja porque o contexto investigativo mudou de tal forma que informações antes consideradas periféricas passaram a ser relevantes.
Mendonça segue como relator dos inquéritos do Master no STF. Alexandre de Moraes conduz a investigação sobre Eduardo Bolsonaro e, no dia 26 de maio, pediu à PGR que avalie incluir Jair e Flávio Bolsonaro nessa mesma apuração. O fio que conecta o caso do Master à órbita bolsonarista é justamente o que torna a delação de Vorcaro potencialmente explosiva, ou potencialmente frustrante, dependendo do que ele decidir contar e de quanto o que ele conta pode ser verificado independentemente.
Por enquanto, o ex-banqueiro está na cela especial em Brasília, os advogados estão na mesa de negociação, e os investigadores estão aguardando ver se desta vez o conteúdo justifica o processo.

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