Morre Ramiro Valdés, herói revolucionário de Cuba

Morte de Ramiro Valdés Encerra um dos Últimos Elos com a Geração Fundadora da Revolução Cubana

Aos noventa e quatro anos, morreu neste domingo Ramiro Valdés, um dos doze sobreviventes da travessia do iate Granma que, em mil novecentos e cinquenta e seis, recolocou Fidel Castro em solo cubano para reacender uma insurreição que pareceria, a qualquer observador razoável da época, fadada ao fracasso. Não foi. E Valdés, ao lado de Castro e de Ernesto Che Guevara, transformou aquele desembarque quase suicida no ponto de partida de um dos processos políticos mais duradouros do século vinte.

O presidente cubano Miguel Díaz-Canel anunciou a morte numa publicação na rede social X, descrevendo a dor “como a de um pai” e fechando a mensagem com o slogan que se tornou ritual de despedida na ilha desde a morte de Che Guevara em mil novecentos e sessenta e sete: até a vitória, sempre, comandante. A causa da morte não foi divulgada.

Há algo de simbolicamente pesado em perder, em pleno dois mil e vinte e seis, um dos últimos homens que esteve fisicamente presente no ataque ao quartel de Moncada em mil novecentos e cinquenta e três, episódio que a historiografia cubana trata como o ano zero da revolução. Valdés tinha vinte e um anos naquele dia. Sobreviveu ao ataque fracassado, sobreviveu ao exílio no México, sobreviveu à travessia marítima do Granma, da qual apenas doze dos oitenta e dois homens embarcados chegaram vivos às montanhas da Sierra Maestra. Sobreviveu, por fim, a sete décadas dentro do aparelho de poder que ajudou a construir. Não é exagero dizer que poucas pessoas no mundo testemunharam tanto tempo contínuo no centro de um mesmo projeto político.

Durante a guerrilha na Sierra Maestra, Valdés atuou como vice-comandante de Che Guevara, e os dois lutaram lado a lado na Batalha de Santa Clara, o confronto que selou a queda do governo de Fulgencio Batista em janeiro de mil novecentos e cinquenta e nove. Logo depois da vitória, coube a Valdés montar a estrutura de segurança do novo governo. Foi ele quem deu corpo institucional ao aparato que sustentaria o regime nas décadas seguintes, função que, dependendo de quem narra a história, é descrita como proteção da revolução ou como fundação do sistema de vigilância que until hoje caracteriza o Estado cubano.

A trajetória de Valdés depois disso é, em boa medida, a trajetória do próprio governo cubano. Ministro do Interior. Vice-ministro da Defesa. Ministro da Informação e Comunicações. Vice-presidente entre dois mil e nove e dois mil e dezenove. Membro do Bureau Político do Partido Comunista até o mesmo ano. Mais recentemente, vice-primeiro-ministro, cargo que ocupava até a morte. Poucos dirigentes em qualquer sistema político, autoritário ou democrático, conseguem manter relevância institucional por tanto tempo sem serem alijados pelas disputas internas de poder que normalmente desgastam até os mais leais.

Mesmo em idade avançada, Valdés permanecia visivelmente ativo na vida pública cubana, aparecendo ao lado de Díaz-Canel em uniforme militar para tratar de um dos problemas mais cotidianos e desgastantes enfrentados pela população local: os apagões frequentes que afetam a ilha. Pedia que os cubanos reduzissem o consumo de eletricidade, apagassem luzes, mantivessem o que ele chamava de fervor revolucionário diante da escassez. Há algo quase melancólico nessa imagem final. Um dos últimos guerrilheiros do Granma, octogenário avançado, pedindo sacrifício energético à população num país que prometeu, há mais de sessenta anos, um futuro de abundância socialista.

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