Tarifaço dos EUA e Pix viram crise de imagem para Flávio Bolsonaro

Tarifaço dos EUA e Pix viram crise de imagem para Flávio Bolsonaro

Tem um momento preciso em que uma crise política vira um problema de marca. Para Flávio Bolsonaro, esse momento foi a semana que começou no dia 1º de junho, quando o relatório do USTR formalizou a ameaça de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros e o Pix apareceu no centro das “práticas desleais” identificadas pelo governo americano. A viagem ao Salão Oval da Casa Branca, que na lógica bolsonarista deveria funcionar como demonstração de capacidade diplomática do pré-candidato, virou combustível para o PT e para uma campanha nas redes sociais que tenta emplacar o termo “Tariflávio” com a perseverança de quem sabe que apelidos colam mais rápido do que desmentidos.

Os números levantados pela Palver são reveladores, com a ressalva que os próprios pesquisadores fazem questão de sublinhar: o monitoramento de grupos públicos de WhatsApp e Telegram não é pesquisa eleitoral, não tem amostra representativa e não serve de prognóstico. O que ele mede é temperatura, a intensidade e o teor das mensagens que circulam num ecossistema específico de comunicação. E a temperatura, nessa semana, estava claramente desfavorável a Flávio. Em 81% das publicações opinativas que combinavam menções ao Pix com referências a Bolsonaro, Trump ou Estados Unidos, o senador aparecia como culpado, direta ou indiretamente, pelas ameaças ao sistema de pagamentos ou pelo novo tarifaço.

Esse número precisa ser lido com duas cautelas simultâneas. A primeira é metodológica: grupos públicos de WhatsApp têm uma composição que não reflete o eleitorado geral, e a presença maciça de apoiadores do PT nesses espaços pode inflar o percentual de mensagens com narrativa contrária a Flávio. A segunda cautela vai na direção oposta: o fato de que até aliados do senador e políticos do centrão avaliam a semana como um revés eleitoral para ele sugere que o problema não é apenas de percepção nos grupos de mensageria. É algo mais amplo.

O movimento do PT foi rápido e coordenado. A partir da segunda-feira, quando o relatório do USTR veio a público, aliados de Lula passaram a disseminar nos grupos de mensageria e nas redes sociais a tese de que a visita de Flávio a Washington representava uma ameaça ao Pix. O discurso que circulou nesses espaços foi, segundo a Palver, bastante parecido com o que Lula adotou em seus pronunciamentos públicos, o que indica algum grau de coordenação, ou pelo menos um alinhamento muito eficiente entre a comunicação oficial do governo e sua base nas redes. Lula chamou Flávio de traidor da pátria num evento em Goiás, exibiu cartaz, foi às câmeras. A mensagem entrou nos grupos amplificada por quem já estava esperando por ela.

Flávio tentou reagir. Enviou na terça-feira uma carta ao secretário de Estado Marco Rubio pedindo que os Estados Unidos não imponham as tarifas. Na carta, descreveu o Brasil como atravessando “um período de grave deterioração fiscal e econômica” e argumentou que as taxas “causariam sérios prejuízos ao povo brasileiro.” É uma posição razoável, mas ela chega num momento em que a narrativa dominante já estava formada, e cartas a secretários de Estado raramente conseguem desfazer o que um encontro no Salão Oval ajudou a construir na imaginação do eleitorado.

O problema estrutural de Flávio nesse episódio é que ele foi a Washington com um objetivo claro e legítimo dentro da sua lógica política: conseguir de Trump a classificação do CV e do PCC como organizações terroristas, o que rendeu uma vitória real e concreta. Mas a sequência dos eventos criou uma justaposição visual e narrativa que seus adversários exploraram com eficiência: senador bolsonarista vai à Casa Branca, dias depois os Estados Unidos atacam o Pix e ameaçam taxar o Brasil. A conexão causal pode ser improvável ou inexistente, mas numa disputa de narrativas o que importa é a sequência percebida, não a cadeia de causalidade demonstrável.

As mensagens que isentam Flávio, que correspondem ao restante dos 19%, seguem três linhas distintas. A primeira classifica as acusações como desinformação ou manobra política da esquerda. A segunda nega que haja risco concreto ao Pix, afirmando que o sistema não será bloqueado nem afetado. A terceira defende que a atuação do senador nos Estados Unidos mirava exclusivamente o combate ao crime organizado e que o governo Lula está aproveitando o tema para desgastar o adversário. Essa última linha tem alguma coerência interna, porque o governo brasileiro claramente pretende, segundo fontes ouvidas pela Folha, potencializar ao máximo o desgaste de Flávio enquanto mantém as negociações com Washington. Usar a crise diplomaticamente e usá-la eleitoralmente são duas operações que o PT está conduzindo em paralelo, sem muito disfarce.

O que nenhum dos lados consegue controlar completamente é o próprio tema. O Pix tem hoje uma base de usuários que atravessa ideologias e classes sociais com uma abrangência que nenhum outro produto financeiro brasileiro alcançou antes. Quando o sistema vira alvo de pressão estrangeira, qualquer político que possa ser associado a essa pressão, mesmo que de forma oblíqua, enfrenta um custo. Flávio entendeu isso tarde demais nessa semana específica. A carta para Rubio foi o reconhecimento implícito de que havia um problema a ser gerenciado, mas a gestão chegou depois que a narrativa já tinha ganhado velocidade própria.

“Tariflávio” pode não emplacar como meme duradouro. Apelidos políticos têm vida imprevisível. Mas a semana foi suficientemente ruim para o senador a ponto de aliados dele admitirem o revés, e isso é um dado mais confiável do que qualquer percentual de grupo de WhatsApp.

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