A Rússia e China – Os grandes vencedores da Guerra do Irã

A Rússia e China – Os grandes vencedores da Guerra do Irã

Nem sempre o país que entra em um conflito é o que mais ganha com ele. Enquanto os Estados Unidos assumem o desgaste, duas potências avançam em silêncio.
Nem sempre o país que entra em um conflito é o que mais ganha com ele. Em muitos casos, o resultado aparece fora do campo de batalha, acumulado aos poucos, enquanto outros assumem o custo. O cenário envolvendo o Irã, os Estados Unidos e seus aliados ajuda a entender esse movimento. Enquanto a atenção internacional se concentra na possibilidade de escalada militar, Rússia e China operam de outra forma. Criticam, se posicionam diplomaticamente, mas evitam qualquer envolvimento direto.
Não é recuo. É cálculo.
Um conflito que pressiona o sistema inteiro
A tensão no Golfo Pérsico recolocou no centro do debate um ponto sensível da economia global: o Estreito de Ormuz. Uma parte significativa do petróleo mundial passa por ali. Quando essa rota entra em risco, o impacto é imediato. O preço da energia sobe, cadeias de suprimento ficam mais instáveis e governos passam a lidar com inflação e incerteza ao mesmo tempo.
Para os Estados Unidos, a expectativa inicial era de uma ação controlada, capaz de conter o problema rapidamente. Mas o histórico recente mostra que conflitos desse tipo tendem a se prolongar. À medida que o tempo passa, o custo deixa de ser apenas militar. Ele se espalha pela economia e começa a produzir desgaste político.
É nesse ambiente que outros atores avançam.
Rússia: menos pressão, mais receita
A Rússia continua com sua atenção voltada para a guerra na Ucrânia. Esse é o seu eixo principal, e isso limita qualquer atuação direta no Oriente Médio. Mas não impede que o país se beneficie do cenário.
Com a instabilidade no Golfo, o preço do petróleo reage. Para um grande exportador de energia, isso significa aumento de receita em um momento sensível do ponto de vista econômico. Antes da nova crise, Moscou lidava com pressão orçamentária causada pelas sanções. A valorização do petróleo muda esse quadro, garante entrada de recursos e ajuda a sustentar um conflito que já se arrasta há mais tempo do que o previsto.
Enquanto os Estados Unidos direcionam parte da sua capacidade para o Oriente Médio, a Rússia ganha margem para consolidar posições em outro cenário estratégico.
Há também sinais de cooperação indireta com o Irã, principalmente em áreas ligadas à tecnologia militar. Não se trata de uma aliança formal, mas de uma convergência de interesses que beneficia os dois lados.
China: antecipação antes da crise
A China adota uma postura diferente. Em vez de reagir, se antecipa.
Nos meses anteriores à escalada, Pequim aumentou suas reservas de petróleo. Aproveitou preços mais baixos e construiu uma proteção contra choques no fornecimento. Além disso, manteve canais diretos com o Irã para garantir fluxo de energia, operando fora dos mecanismos tradicionais dominados pelo Ocidente.
Esse movimento reduz vulnerabilidades em um momento de instabilidade. Mas o ganho não está apenas na segurança energética. Com os Estados Unidos envolvidos em mais um foco de tensão, a China encontra espaço para ampliar sua atuação em regiões consideradas prioritárias, especialmente no Indo-Pacífico.
Há também um elemento menos visível. Cada operação militar americana é observada com atenção. Padrões são identificados, decisões são analisadas, e tudo isso alimenta o planejamento estratégico chinês para cenários futuros.
Um jogo que não depende de confronto direto
A ausência de ação militar direta pode dar a impressão de distanciamento. Na prática, é uma forma diferente de atuar. Rússia e China evitam o custo imediato do conflito e acompanham o desgaste de quem está envolvido diretamente.
Esse tipo de estratégia exige tempo e controle. Não busca resultado imediato. Trabalha com acúmulo de vantagem. Enquanto um país se expõe, outros preservam recursos e ampliam sua margem de manobra.
Os efeitos no restante do mundo
O impacto dessa dinâmica vai além das grandes potências. O aumento do preço da energia pressiona economias importadoras. A inflação volta a ser uma preocupação mais intensa. Bancos centrais enfrentam dificuldade para equilibrar crescimento e controle de preços.
Na Europa, a questão energética ganha novo peso político e econômico. Nos Estados Unidos, o prolongamento do conflito começa a gerar custo político interno. Em países emergentes, a alta do petróleo pressiona moedas e aumenta a inflação. Um cenário que parecia localizado passa a produzir efeitos muito mais amplos.
O que ainda pode mudar
Apesar das vantagens momentâneas, Rússia e China também operam em um ambiente de risco. Uma desaceleração global pode afetar exportações, principalmente no caso chinês. Além disso, conflitos no Oriente Médio têm histórico de escaladas rápidas e imprevisíveis. Qualquer mudança mais brusca pode alterar o equilíbrio atual.
Conclusão
O conflito envolvendo o Irã mostra que, em muitos casos, o ganho estratégico não está na ação direta. Enquanto os Estados Unidos lidam com custos imediatos, Rússia e China ampliam sua posição de forma discreta, aproveitando o desgaste alheio e explorando oportunidades abertas pelo próprio conflito. Não se trata de ausência. Trata-se de escolha. E no cenário internacional, esse tipo de escolha costuma produzir efeitos que aparecem com o tempo, mas permanecem por muito mais tempo.

Se a paciência é um traço cultural do Oriente, este é um belo exemplo do seu bom uso. Sun-Tzu, general que viveu há mais de 2000 mil anos, já dizia “A suprema arte da guerra é subjugar o inimigo sem lutar.””Espere na tranquilidade enquanto o inimigo se esgota”. Muitas vezes a necessidade vaidosa e arrogante de expor a capacidade  militar através de bravatas e atitudes impensadas pode provocar resultados danosos para os desavisados. Que fiquemos com mais esta lição da História.

Professor de História há 32 anos, ex-diretor do Centro de Desenvolvimento da Educação de Armação dos Búzios, autor de A Construção da Identidade Cultural Buziana, Professor- A Ressignificação do Fazer Escolar e Idiossincrasias

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