BRICS- que começou como uma sigla curiosa para economias emergentes tornou-se o maior movimento de reorganização do poder global desde o fim da Guerra Fria. E tudo acontece em silêncio.
De sigla a movimento global
O mundo que emergiu após o fim da Guerra Fria parecia estável para quem observava de fora. Havia regras conhecidas, instituições consolidadas e um roteiro implícito sobre como as economias deveriam se comportar. Durante algum tempo, esse modelo foi aceito até por países que ocupavam posições secundárias. Mas a história, quando muda de direção, não avisa com antecedência.
Foi nesse ambiente que o BRICS deixou de ser apenas uma sigla curiosa e passou a ocupar um espaço mais concreto nas discussões globais. A entrada de novos países e o interesse de outros tantos não surgem por acaso. Há um incômodo crescente com as limitações impostas por um sistema que, para muitos, já não oferece as mesmas oportunidades de antes.
Originalmente formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, o bloco expandiu-se para incluir novos membros como Irã, Emirados Árabes Unidos e Etiópia. Hoje representa mais de 45% da população mundial e cerca de 35% do PIB global.
Não se trata apenas de comércio — essa é a parte mais visível, aquela que aparece nos números e relatórios. O movimento é mais profundo. Existe um esforço para construir caminhos próprios, reduzir vulnerabilidades e, sobretudo, ganhar margem de decisão autônoma.
Por que o dólar está sendo questionado?
O dólar, que durante décadas funcionou como referência quase incontestável, começa a ser observado sob outra perspectiva. Não porque perdeu sua importância de forma imediata, mas porque seu uso carrega implicações que vão além da economia. Sanções, bloqueios e pressões políticas revelaram algo que muitos preferiam ignorar: dependência, nesse contexto, pode se transformar em fragilidade.
“Quando países passam a negociar em moedas locais, não estão apenas economizando em taxas. Estão questionando um dos pilares do poder global das últimas décadas.”
Quando se fala em desdolarização, não se trata de um rompimento brusco com o sistema atual, mas de um movimento que cresce aos poucos, quase sem alarde. O objetivo não é eliminar o dólar de imediato — algo inviável no curto prazo — mas reduzir sua centralidade nas transações entre países do Sul Global.
Como o BRICS+ acelera a desdolarização
À medida que o grupo se expande, surgem oportunidades para acordos que dispensam a moeda americana. Isso fortalece as relações internas do bloco e cria um ambiente onde outras formas de negociação se tornam possíveis. Aos poucos, o que antes parecia exceção começa a se tornar prática recorrente.
Alianças vão sendo redesenhadas — nem sempre de forma explícita, nem sempre com anúncios grandiosos. Em muitos casos, os acordos acontecem longe dos holofotes, construídos com pragmatismo e interesse mútuo. Países que antes orbitavam em torno de um único centro de poder passam a explorar novas possibilidades.
Alterações nas rotas comerciais afetam o preço dos produtos. Decisões sobre investimentos influenciam o mercado de trabalho. Movimentos no sistema financeiro chegam, ainda que de forma diluída, ao dia a dia das pessoas — mesmo nos países que não fazem parte do bloco.
Uma mudança discreta que se torna irreversível
Para quem acompanha de longe, pode parecer um debate restrito a diplomatas e economistas. Mas a realidade costuma ser menos abstrata. É uma mudança de postura que não ocorre da noite para o dia, mas que, uma vez iniciada, dificilmente retorna ao ponto anterior.
O BRICS+ não representa apenas um bloco ampliado. Ele simboliza uma tentativa de reorganizar espaços de poder em um mundo que já não aceita, com a mesma naturalidade de antes, uma única direção. E como em outros momentos da história, essas mudanças começam discretas, quase imperceptíveis, até que se tornam impossíveis de ignorar.
“A desdolarização não é um evento isolado. Ela faz parte de um movimento maior, onde diferentes países buscam mais autonomia em um mundo cada vez menos previsível.”
Talvez o ponto mais importante seja entender que esse processo já está em curso. E como já aconteceu em outros momentos da história, essas mudanças começam discretas — até que se tornam evidentes para todos.

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