A paternidade improvável do Pix e o filho que foi a Washington
Tem algo quase tragicômico na cena. Era outubro de 2020, o cercadinho do Palácio da Alvorada, aquele ritual diário em que Jair Bolsonaro conversava com apoiadores como se estivesse numa roda de chimarrão presidencial. Um homem se aproxima e oferece um elogio: “Parabéns pelo Pix, presidente, novo sistema do Banco Central que vai ajudar a população com pagamentos.” Bolsonaro responde sobre aviação civil. Fala de carteira de piloto, de Tarcísio de Freitas, de desburocratização do setor aéreo. O apoiador tenta de novo, explica que é o sistema do Banco Central, pagamentos 24 horas, sete dias por semana. O presidente responde que não tomou conhecimento e que vai conversar com Roberto Campos naquela semana.
Essa cena saiu do arquivo e voltou à circulação porque Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio de Janeiro e filho do ex-presidente, passou a repetir com convicção crescente que “o Pix é do Brasil e do Bolsonaro.” É o tipo de frase que funciona bem em cartaz, mal na checagem factual. O pai, quando o sistema estreou, não sabia o que era. Mais do que isso: confundiu com outro assunto inteiramente. E ainda assim o filho foi em frente, levantou o cartaz literalmente, num evento em Minas Gerais, com três pontos de exclamação no final, como se a ênfase gráfica pudesse suprir o que falta em substância histórica.
Para entender por que essa disputa sobre paternidade voltou à superfície agora, é preciso recuar alguns dias. No dia 26 de maio, Flávio esteve no Salão Oval da Casa Branca. Saiu de lá com uma vitória política real e concreta: Trump atendeu ao seu pedido e classificou facções criminosas brasileiras como organizações terroristas, o que na gramática do bolsonarismo representa uma validação importante. O problema é que, poucos dias depois, o USTR divulgou um relatório propondo tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, com o Pix no centro das “práticas desleais” identificadas pelo governo americano.
O timing não poderia ser pior para Flávio. A viagem que deveria ser apresentada como um triunfo diplomático da oposição virou um passivo político imediato. O senador se defendeu dizendo que pediu a Trump que não taxasse o Brasil. Mas a sequência dos fatos é a que é: ele foi a Washington, voltou com uma vitória simbólica, e dias depois o governo americano publicou um documento atacando o sistema de pagamentos mais popular do país. Na percepção pública, especialmente nos grupos de WhatsApp e Telegram onde essas discussões acontecem em tempo real e sem filtro, a equação foi feita rapidamente.
Um levantamento da empresa Palver, que monitora mensagens em mais de cem mil grupos públicos nessas plataformas, mostrou que Flávio aparece como culpado pelas ameaças ao Pix ou pelo novo tarifaço em oito de cada dez mensagens opinativas sobre o assunto. O período coberto vai de 27 de maio a 2 de junho, exatamente a janela que engloba a viagem e suas consequências. Não é uma pesquisa eleitoral, não mede intenção de voto, mas mede temperatura. E a temperatura estava alta.
Lula aproveitou. Chamou Flávio de traidor da pátria num evento em Goiás, exibindo um cartaz com os dizeres “O Pix é do Brasil”, contraponto direto ao slogan bolsonarista. Disse que o senador foi aos Estados Unidos pedir a Trump que interviesse no sistema brasileiro. Flávio retrucou atribuindo o tarifaço ao “comportamento de agressão” de Lula em relação aos americanos. A troca de acusações seguiu o roteiro habitual, mas o terreno em que ela acontece é incomum: raramente uma política de infraestrutura financeira vira munição eleitoral tão visceral quanto isso.
O ponto factual, que tende a se perder no barulho da disputa, é que o Pix começou a ser desenvolvido durante o governo Temer, em 2018, quando Ilan Goldfajn presidia o Banco Central. Foi lançado em 2020, já na gestão Bolsonaro, com Roberto Campos Neto na presidência da autoridade monetária. Tecnicamente, portanto, atravessou dois governos antes de entrar em operação plena em novembro daquele ano. Atribuí-lo a Bolsonaro com exclusividade é forçar a barra. Mas atribuí-lo a Lula seria igualmente descabido, e o PT sabe disso, por isso o cartaz dizia “do Brasil”, não “do PT.”
O que esse episódio revela, no fundo, vai além da disputa específica sobre quem criou o quê. Ele mostra como o Pix se tornou um ativo político de primeira grandeza, algo que ninguém quer perder e ninguém quer ser visto destruindo. Quando Trump ataca o sistema, a oposição brasileira precisa se contorcer para não parecer cúmplice. Quando Lula defende, o governo ganha um tema em que a popularidade do produto faz o trabalho pesado. O Pix tem hoje uma base de usuários tão ampla e tão transversal que criticá-lo eleitoralmente seria suicídio. Daí a corrida para colocar o próprio nome no produto, mesmo que a memória histórica jogue contra.
Flávio foi a Washington, voltou com Trump do lado, e a conta chegou antes do esperado. Se o encontro no Salão Oval foi ou não o gatilho direto para o relatório do USTR, isso provavelmente nunca ficará claro. Mas no Brasil das percepções e das narrativas que se formam em grupo de WhatsApp, o que importa é a sequência. E a sequência foi essa.

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