Estados Unidos Atacam Irã Após Drone Iraniano Atingir Navio Comercial no Estreito de Ormuz

Estados Unidos Atacam Irã Após Drone Iraniano Atingir Navio Comercial no Estreito de Ormuz, e o Frágil Cessar Fogo Volta a Tremer
O memorando de entendimento assinado em Versalhes no dia dezessete de junho durou exatamente o tempo necessário para que alguém acreditasse nele. Menos de uma semana depois, um drone iraniano atacou um navio comercial no Estreito de Ormuz, os Estados Unidos responderam com ataques a instalações militares dentro do território iraniano, e a pergunta que ninguém na Casa Branca quis responder diretamente voltou a circular: o cessar fogo ainda está de pé?

A resposta oficial, por ora, é que sim. Mas essa resposta exige um nível de contorcionismo retórico que seria impressionante em qualquer outra circunstância.
Os militares americanos descreveram a ação desta semana como resposta direta e proporcional ao ataque iraniano contra o navio comercial. Os alvos foram instalações de armazenamento de mísseis, depósitos de drones e radares costeiros, exatamente o tipo de infraestrutura que os Estados Unidos já haviam atingido semanas antes, durante a fase mais intensa do conflito iniciado em vinte e oito de fevereiro.

O padrão é familiar demais para passar por coincidência. O Irã ataca um navio. Os Estados Unidos respondem com ataques terrestres dentro do Irã. O Irã afirma não ter reconhecido o incidente publicamente, mas impõe restrições sobre as rotas que os navios devem seguir ao transitar pelo estreito.
Essa sequência não é nova. É quase idêntica ao que acontecia antes do memorando de entendimento entrar em vigor. A diferença é que agora há um documento assinado supostamente regulando o comportamento das partes. E o presidente Trump, quando perguntado diretamente no Salão Oval se considerava o cessar fogo ainda vigente, não respondeu. Disse que não gostou do ataque ao navio comercial. Mas não disse se o acordo ainda valia.

Há uma lógica perversa nessa ambiguidade. Enquanto ninguém declara oficialmente o fim do cessar fogo, ninguém precisa assumir a responsabilidade pelo colapso das negociações. Cada lado pode continuar atacando o outro dentro de um nível considerado aceitável, chamando cada episódio de resposta proporcional e incidente isolado, sem admitir que o processo de paz voltou à estaca zero. É uma forma sofisticada de fazer guerra enquanto finge estar construindo paz.

Os analistas militares americanos ouvidos pela NBC apontaram que tanto os Estados Unidos quanto o Irã usaram as semanas de cessar fogo para recompor seus arsenais. Os mísseis americanos gastos nas operações anteriores foram repostos. Novos grupos de ataque foram posicionados na região. Os iranianos fizeram o mesmo. Ou seja, o cessar fogo funcionou, em termos militares, como uma pausa estratégica para reabastecimento, não como o início de uma transição para a paz.

Isso não é detalhe técnico. É revelação sobre as intenções reais das partes envolvidas. Quando dois lados usam uma trégua para se rearmar em vez de negociar, a conclusão mais honesta é que nenhum dos dois acredita de fato que o conflito acabou.
O timing do anúncio dos ataques americanos também mereceu atenção. O Comando Central dos Estados Unidos confirmou as operações depois que os mercados financeiros fecharam na sexta-feira. Petróleo, gás, transportes marítimos, todos esses setores reagem imediatamente a notícias de conflito no Estreito de Ormuz, rota por onde passa uma fração significativa do petróleo consumido globalmente.

Aguardar o fechamento dos mercados para anunciar ataques militares é uma decisão que mistura estratégia militar com gestão de impacto econômico de uma forma que seria impensável em guerras de décadas anteriores.
Do lado diplomático, as conversas técnicas que estavam em andamento, envolvendo o programa nuclear iraniano e os detalhes do memorando de entendimento, seguem formalmente ativas. Especialistas já vinham sinalizando que a janela de sessenta dias estabelecida no acordo seria insuficiente para resolver questões tão complexas. Agora, com ataques e contraataques voltando ao repertório cotidiano, a possibilidade de prorrogação dessa janela fica ainda mais dependente de uma variável que nenhum negociador controla: a disposição das partes de resistir à tentação de escalar.

O vice-presidente J. D. Vance voltou para os Estados Unidos após as rodadas de conversas na Suíça. O enviado Steve Witkoff e Jared Kushner seguem envolvidos no processo. A pergunta prática que ninguém ainda respondeu é como se retoma uma conversa técnica sobre não proliferação nuclear quando, simultaneamente, os dois países estão se atacando novamente. A resposta diplomática padrão seria que são processos separados. A resposta que qualquer observador razoável daria é que não são.

O Irã não confirmou publicamente a autoria do ataque ao navio comercial, mas impôs condições sobre a navegação no estreito que funcionam como admissão implícita de controle sobre o que acontece ali. Essa estratégia de negar sem negar, de controlar sem assumir o controle, é parte da doutrina iraniana de dissuasão há décadas. Funciona porque cria incerteza suficiente para que qualquer resposta militar americana possa ser enquadrada como agressão desproporcional contra um país que sequer admitiu ter feito o que fez.

O que essa sequência de eventos revela, no centésimo décimo quinto dia de conflito, é que a guerra entre Estados Unidos e Irã não terminou em Versalhes. Entrou em uma fase diferente, mais ambígua, onde os dois lados atacam e negociam simultaneamente, onde cessar fogo é um conceito que ninguém define com precisão suficiente para que precise ser respeitado, e onde a diferença entre retomada do conflito e resposta proporcional é decidida por comunicados de assessoria de imprensa, não por fatos militares objetivos.
Os mercados vão reagir quando abrirem.

O petróleo vai subir. Analistas vão debater se isso é escalada ou ruído. E os civis que vivem ao longo das rotas de ataque, no Irã, no Líbano, nos países do Golfo que hospedam bases americanas, vão acordar mais uma manhã sem saber se o dia vai terminar com uma notícia de paz ou com mais um comunicado do Comando Central descrevendo outra resposta proporcional a mais um incidente isolado.

Este conflito parece estar longe de acabar e o motivo é claro: o Governo Trump não está interessado no fim. A continuidade do conflito segue a cartilha da extrema direita , que baseia as suas ações na ideia de comflito permanente e na culpabilização do outro. Por outro lado, por razões geopoliticas que envolvem a soberania da região, o Irã não desistirá tão fácil.

Professor de História há 32 anos, ex-diretor do Centro de Desenvolvimento da Educação de Armação dos Búzios, autor de A Construção da Identidade Cultural Buziana, Professor- A Ressignificação do Fazer Escolar e Idiossincrasias

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