China: o socialismo que fez as pazes com o mercado
Durante muito tempo, o Ocidente alimentou uma convicção que parecia definitiva: a de que o capitalismo liberal era o destino natural de todas as sociedades. A queda da União Soviética fortaleceu essa percepção e muitos chegaram a acreditar que a História havia encontrado seu ponto final. Mas a ascensão chinesa, discreta em seus primeiros movimentos e avassaladora nas últimas décadas, desmontou essa certeza.
Compreender a China de hoje deixou de ser um exercício de curiosidade. Tornou-se uma necessidade para entender o mundo em transformação. Com uma população de cerca de um bilhão e quatrocentos milhões de habitantes, a China ocupa hoje a posição de maior economia do planeta quando medida por paridade de poder de compra. Esse dado, por si só, já seria suficiente para provocar uma revisão das categorias econômicas tradicionais. Afinal, como um país governado por um partido comunista alcançou um crescimento que rivaliza com as maiores potências capitalistas da história?
A resposta está no que Pequim define como socialismo com características chinesas. Para muitos analistas do Ocidente, a expressão soa contraditória. A lógica convencional ensina que socialismo e mercado pertencem a campos opostos. A experiência chinesa mostra que a história não costuma obedecer a fórmulas prontas.
Para entender isso, é preciso olhar para trás.
No início do século dezenove, a China representava quase um terço da economia mundial. Era o grande centro produtivo do planeta. Essa posição começou a ruir com o chamado século da humilhação, iniciado nas Guerras do Ópio, quando o Império Britânico impôs sua força militar para abrir mercados e consolidar influência sobre território chinês. Depois vieram outras potências europeias e, mais tarde, o expansionismo japonês.
O país foi fragmentado. Perdeu autonomia, riqueza e prestígio.A Revolução de mil novecentos e quarenta e nove, liderada por Mao Zedong, nasceu desse trauma. Não foi apenas uma ruptura social. Foi, antes de tudo, um processo de reconstrução nacional.
Sob Mao, a China reformou sua estrutura agrária, consolidou a soberania política e lançou as bases da industrialização. Mas permaneceu pobre. Era uma sociedade majoritariamente rural, com baixa produtividade e limitada capacidade tecnológica.
É nesse cenário que surge Deng Xiaoping.
Quando assumiu a condução política do país em mil novecentos e setenta e oito, Deng compreendeu algo fundamental: sem desenvolver suas forças produtivas, o socialismo seria apenas um ideal distante. Sua leitura era pragmática. Era preciso enriquecer para depois redistribuir.
Foi ali que nasceu a política de reforma e abertura.
Ao contrário do que muitos dizem, Deng não abandonou o socialismo. O que fez foi adaptá-lo à realidade chinesa. Permitiu capital privado, abriu zonas econômicas especiais e incentivou investimento estrangeiro. Mas preservou o que julgava essencial: o controle do Estado sobre os setores estratégicos.
Esse ponto é decisivo.
Na China, o mercado existe, mas não dirige o Estado. É o Estado que dirige o mercado. Os grandes bancos permanecem públicos. O sistema financeiro, a energia, as telecomunicações, o transporte e boa parte da indústria pesada continuam sob comando estatal. Mesmo empresas privadas gigantescas, como Alibaba e Tencent, operam sob supervisão política rigorosa.
Esse modelo é muito diferente do norte-americano, onde o capital privado frequentemente molda a própria estrutura do poder. Na China, o capital é permitido enquanto serve ao projeto nacional.
O economista Chen Yun resumiu essa lógica na imagem da “economia da gaiola”. O mercado seria o pássaro. O Estado seria a gaiola. O pássaro pode se mover, pode voar dentro de certos limites, mas não pode escapar da estrutura que o contém.
Os resultados dessa experiência são difíceis de ignorar. Em mil novecentos e oitenta, a renda per capita chinesa era inferior à de países como Haiti e Honduras. Hoje, a China é uma potência industrial, tecnológica e comercial. Retirou centenas de milhões da pobreza, promoveu a maior migração interna da história humana e construiu infraestrutura numa escala sem precedentes.
A pobreza extrema foi oficialmente erradicada.
A expectativa de vida, que girava em torno de trinta e cinco anos no momento da revolução, hoje se aproxima dos oitenta. A mortalidade infantil caiu drasticamente. O país que enfrentava fome em larga escala disputa hoje protagonismo em inteligência artificial, energia limpa e exploração espacial.
Mas esse processo não ocorreu sem custos.
O crescimento aprofundou desigualdades regionais. As grandes cidades costeiras se distanciaram do interior rural. O mercado imobiliário passou a gerar tensões. O envelhecimento populacional se tornou uma preocupação e os impactos ambientais exigem respostas urgentes.
Foi diante desses desafios que Xi Jinping lançou a política da prosperidade comum. A proposta busca conter excessos do capital privado e corrigir distorções produzidas pelo próprio crescimento. O objetivo não é interromper a expansão econômica, mas impedir que ela comprometa a coesão social.
Esse talvez seja o grande desafio da China contemporânea: continuar crescendo sem repetir os mesmos desequilíbrios estruturais do capitalismo liberal.
O que torna o modelo chinês singular é justamente essa tentativa de combinar planejamento político com dinamismo econômico. Não se trata de um retorno ao maoísmo clássico. Também não é uma adesão plena ao capitalismo.
É uma experiência histórica própria.
Talvez o maior erro do Ocidente tenha sido tentar entender a China usando categorias construídas exclusivamente na experiência europeia. A China não copia modelos. Adapta, corrige, testa e reconstrói.
Esse comportamento explica por que tantas previsões falharam. Durante décadas, analistas afirmaram que a abertura econômica levaria inevitavelmente à liberalização política nos moldes ocidentais. Não aconteceu. Disseram que a China entraria em colapso por causa de suas contradições internas. Também não aconteceu. Falaram em bolha econômica. A bolha tornou-se a maior potência industrial do planeta.
A grande lição talvez seja esta: a China demonstrou que o mercado pode ser usado como instrumento sem se tornar soberano. Num mundo marcado pelo esgotamento do neoliberalismo, pelas crises financeiras recorrentes e pelo crescimento da desigualdade, a experiência chinesa deixou de ser apenas uma peculiaridade distante. Ela se transformou numa alternativa concreta de poder.
Se o século vinte foi moldado pela ascensão americana, o século vinte e um será profundamente definido pela capacidade do mundo de compreender, enfrentar ou se adaptar ao modelo chinês.

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