Guerra do Irã Brasil Archives - https://mancheteglobal.com/tag/guerra-do-ira-brasil/ Thu, 21 May 2026 21:12:08 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1.3 Khamenei Não Abre Mão – O urânio fica no Irã https://mancheteglobal.com/khamenei-nao-abre-mao-o-uranio-fica-no-ira/ https://mancheteglobal.com/khamenei-nao-abre-mao-o-uranio-fica-no-ira/#respond Thu, 21 May 2026 21:12:08 +0000 https://mancheteglobal.com/?p=367 Khamenei Não Abre Mão – O urânio fica no Irã Existe uma cena que se repete na história da diplomacia com o Irã. Americanos chegam à mesa convictos de que desta vez vai funcionar, que [...]

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Khamenei Não Abre Mão – O urânio fica no Irã

Existe uma cena que se repete na história da diplomacia com o Irã. Americanos chegam à mesa convictos de que desta vez vai funcionar, que a pressão foi suficiente, que o interlocutor está pronto para ceder. E então Teerã faz exatamente o oposto do esperado. Com a determinação do líder supremo Mojtaba Khamenei de manter o estoque de urânio enriquecido em solo iraniano, o roteiro se repete, com a diferença de que desta vez há uma guerra em andamento e um cessar-fogo que ninguém acredita que vai durar. A ideia é clara e objetiva. O urânio não sai do país. Ponto.

Para entender o peso dessa decisão, é preciso voltar um pouco no tempo, quando os Estados Unidos e Israel atacaram as instalações nucleares iranianas em junho de 2025. Na época,  acrefitava-se que o Irã tinha quatrocentos e quarenta quilos de urânio enriquecido a sessenta por cento. Quanto sobrou desse estoque após os bombardeios? A própria agência não sabe ao certo. O diretor-geral Rafael Grossi disse em março que algo em torno de duzentos quilos estaria num complexo de túneis em Isfahan, com uma quantidade menor em Natanz. Números que os americanos querem fora do país. Números que Khamenei quer exatamente onde estão.

Trump, que raramente escolhe as palavras com cuidado, foi incisivo: “Vamos pegar. Não precisamos, não queremos. Provavelmente destruiremos depois de pegar. Mas não vamos deixar eles terem.” Discurso de campanha ou ultimato real? A diferença importa menos do que parece quando o outro lado já decidiu que não vai ceder.

Dentre tantas coisas que o governo Trump não esperava que acontecessem nesse conflito, esta talvez seja a mais reveladora. A determinação de Khamenei não é birra diplomática. É cálculo. Os líderes iranianos chegaram a uma conclusão simples: entregar o urânio seria entregar a única moeda de troca que resta. Sem isso,  o país ficaria mais exposto a novos ataques e a história recente não deixa espaço para ingenuidade. A Líbia desarmo e se lembram  como terminou.

Já Netanyahu, do lado israelense, estabeleceu três condições para considerar a guerra encerrada: retirada do urânio enriquecido, fim do apoio iraniano a milícias e eliminação da capacidade balística do Irã. É o tipo de exigência que foi feita para não ser aceita ou foi feita para prolongar o conflito por pelo menos mais alguns anos.

O cessar-fogo que existe hoje é frágil ao ponto de não merecer o nome. Começou depois dos ataques de vinte e oito de fevereiro, quando o Irã respondeu contra bases americanas nos países do Golfo e o Hezbollah voltou a entrar em cena no Líbano. Desde então, as duas partes pausaram os combates sem resolver nada. O bloqueio naval americano aos portos iranianos continua. O controle iraniano sobre Ormuz por onde passa uma fatia significativa do petróleo mundial também é. O Apesar do empenho do Paquistão em mediar, a situação não inspira muito otimismo.

Alguns iranianos falam sobre “fórmulas viáveis”. Como, por exemplo,  delas seria dispersar o estoque sob supervisão da agência de energia atômica, reduzindo o grau de enriquecimento sem transferir o material para fora do território. É o tipo de solução que permite que cada lado diga que ganhou alguma coisa. Diplomaticamente até é bonito, mas seria politicamente viável? Depende de quanto Trump precisa de uma vitória concreta para colocar aos pés de Israel  e do  quanto Khamenei pode ceder sem parecer que se rendeu.

O negociador-chefe iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf, disse na quarta-feira que “movimentos óbvios e ocultos do inimigo” indicavam que os americanos preparavam novos ataques. Trump confirmou, no mesmo dia, que os Estados Unidos estavam prontos para retomar as operações caso o Irã não chegasse a um acordo, porém sugeriu que Washington poderia esperar “alguns dias para obter as respostas certas.” Alguns dias. Em guerras que já duram meses, essa é uma unidade de tempo quase cômica.

O que fica claro, olhando para esse impasse, é que nenhum dos lados entrou nesse conflito com expectativas calibradas. Washington apostou numa campanha rápida, cirúrgica, capaz de dobrar o Irã sem um confronto prolongado. Não foi o que aconteceu. Teerã resistiu mais do que o previsto, o Estreito de Ormuz virou instrumento de pressão e o preço do petróleo virou problema de sessenta países ao mesmo tempo.

E agora, com Khamenei endurecendo a posição sobre o urânio, o conflito tende a se arrastar pelos próximos meses sem qualquer sinal real de apaziguamento. As negociações vão continuar. As declarações duras vão continuar. O cessar-fogo vai continuar sendo chamado de cessar-fogo enquanto as duas partes se preparam para o próximo movimento. É o tipo de situação que historiadores descrevem como “guerra de posições” e diplomatas chamam de “processo em curso” eufemismos para dizer que ninguém sabe quando isso acaba.

Obrigado por ficar até o fim e não deixe de se inscrever.

 

Professor de História há 32 anos, ex-diretor do Centro de Desenvolvimento da Educação de Armação dos Búzios, autor de A Construção da Identidade Cultural Buziana, Professor- A Ressignificação do Fazer Escolar e Idiossincrasias

 

 

 

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Um estreito no Oriente Médio responde por um quinto de todo o petróleo consumido no planeta. Quando ele trava, o efeito não fica no mapa ele chega no preço do combustível, do frete e dos alimentos.

Leitura: 7 minutos

O Irã acabou de conquistar algo que nenhum país gostaria que ele tivesse: influência direta sobre uma das rotas de energia mais importantes do planeta. O problema não é só geopolítico. É prático, imediato  e pode aparecer no preço da gasolina nas próximas semanas.

Pontos centrais deste artigo

  • O Estreito de Ormuz escoa cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo
  • Após ataques de EUA e Israel, o Irã passou a ameaçar embarcações que tentassem atravessar a região
  • Executivos do setor estimam possível queda de 7 a 10 milhões de barris por dia na oferta global
  • A Saudi Aramco, maior produtora do mundo, comunicou que não consegue garantir sua própria logística de exportação
  • No Brasil, o impacto chega pelo diesel, pelo frete e, em seguida, pelo preço dos alimentos

Um ponto no mapa que move o mundo

Estamos falando de um trecho estreito de água no Oriente Médio. Só que esse detalhe geográfico é responsável por escoar cerca de vinte por cento de todo o petróleo consumido no mundo. Não é pouca coisa.  Um estreito no Oriente Médio responde por um quinto de todo o petróleo consumido no planeta. Quando ele trava, o efeito não fica no mapa ele chega no preço do combustível, do frete e dos alimentos é uma parte enorme da engrenagem global.

Depois de ataques realizados pelos Estados Unidos e por Israel contra alvos iranianos, a resposta veio de forma concreta. O Irã partiu para ações com drones, mísseis e ameaças diretas a qualquer embarcação que tentasse atravessar a região. E quando a confiança desaparece em uma rota estratégica como o Estreito de Ormuz, o sistema inteiro começa a travar.

“Um navio petroleiro chamado Callisto está parado no porto de Mascate, em Omã. Não porque está descarregando. Mas porque simplesmente não há segurança para seguir viagem.”

Agora multiplica isso por dezenas de navios. Depois por centenas. Companhias de navegação estão evitando a rota. Petroleiros estão ficando ancorados. Refinarias estão em alerta.

Sete a dez milhões de barris por dia fora do mercado

Executivos do setor energético já falam em uma possível queda de produção entre sete e dez milhões de barris por dia no Oriente Médio. Não é uma oscilação pequena  é uma das maiores interrupções de oferta da história recente. E quando a oferta cai desse jeito, o preço reage. Quase automaticamente.

Para tentar conter o choque, a Agência Internacional de Energia anunciou a liberação de reservas estratégicas, com centenas de milhões de barris colocados no mercado de uma só vez. Mas isso resolve no curto prazo. Não resolve o problema estrutural. Se o bloqueio continuar, o mercado volta a pressionar.

A Saudi Aramco não consegue garantir sua própria logística

Houve um episódio que chamou atenção dentro da indústria. A Saudi Aramco a maior empresa de petróleo do mundo enviou uma comunicação para seus compradores dizendo que não conseguia garantir qual porto utilizaria para exportação no próximo mês.

A maior produtora do planeta sem controle sobre sua própria logística. Não é normal.

Foi nesse contexto que surgiu uma frase que circulou forte no mercado: talvez fosse necessário “ligar para o Irã” para entender quando a situação vai se normalizar. Porque, na prática, o que define a retomada não é um discurso político. É segurança real para os navios. E hoje quem tem capacidade de influenciar isso diretamente é Teerã.

Mesmo com escolta militar, o risco continua

Os Estados Unidos discutem enviar escoltas militares para proteger os petroleiros. Mas aqui entra um fator que pouca gente considera: o risco financeiro. Nenhuma empresa quer colocar bilhões de dólares em carga navegando em uma zona de guerra ativa. Mesmo com proteção militar, o risco permanece. E quando o risco sobe, o seguro dispara  ou simplesmente deixa de existir. em seguro, o navio não sai. Simples assim.

Alguns ataques também atingiram infraestruturas importantes: portos, refinarias e campos de petróleo. Reparos levam tempo,  às vezes semanas, às vezes meses. Ou seja, mesmo que o conflito desacelere, os efeitos continuam.

Por que isso chega no Brasil

O Brasil não está no Oriente Médio, mas está totalmente conectado ao preço internacional do petróleo. Quando o preço sobe lá fora, ele chega aqui dentro. Primeiro no diesel. Depois no transporte. E, em seguida, nos alimentos.

O caminhão paga mais caro no combustível. O frete aumenta. O supermercado repassa. E quando você percebe, está pagando mais caro por coisas básicas. Aquela crise que parece geopolítica vira economia doméstica.

“Poder de influenciar preço. Poder de travar fluxo. Poder de impactar economias inteiras. O risco, nesse caso, virou moeda.”

Situação momentânea ou mudança de fase global?

De um lado, uma potência como os Estados Unidos tentando controlar a situação. Do outro, um país como o Irã conseguindo, na prática, influenciar o funcionamento de uma das principais rotas energéticas do planeta. Isso não é comum.

Se esse tipo de influência se consolidar, o mundo pode estar entrando em uma fase diferente  uma fase em que o controle não está apenas nas mãos das grandes potências tradicionais, mas também em pontos estratégicos controlados por quem consegue gerar risco.

Enquanto os navios continuam parados, o mercado fica em alerta. E quando o mercado fica em alerta, os preços ficam pressionados. O impacto chega. Mais cedo ou mais tarde. Inclusive aqui.

Leia também

O cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã: um intervalo, não um desfecho

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